quinta-feira, 31 de maio de 2018

Led III – Uma análise tripla de passado, presente e futuro


Bem-vindos, novamente, promíscuos concubinos do rock!

Este blog sofreu um grande hiato, devido a fatores externos e que envolvem forças maiores, porém não devem ocupar sequer meia palavra neste espaço. Eu e o Betão prometemos entreter novamente os amantes do rock com mais posts sobre este estilo tão amado. Sem mais delongas vamos ao que importa.

“Porra Leandro, você não posta nada há anos, e vai voltar para falar de Led? Cadê a proposta de Blog descolado, metido a alternativo? Toma vergonha nessa cara!” Calma lá! Primeiro que Led sempre gera assunto (fale bem ou mal de mim, mas fale) e gerará assunto para sempre. Segundo que estes quatros ingleses criaram um aparato musical que será copiado, imitado, sampleado e reverenciado perante toda a eternidade, passando pela guitarra suja de Jimmy, pela voz rasgada e estridente de Robert, pela sensibilidade e virtuosismo de John no baixo, bandolim etc., e por fim, mas não menos importante, a porrada absurda na bateria do outro John. Claro que ainda falta citar todos os trejeitos e cacoetes que tinham em cima de um palco, criando moda e tendência. E já vou avisando que este blog, em toda a sua proposta de catarse, não passará pano algum para estes senhores, que apesar de serem uma sumidade em termos de criatividade, tem a carreira marcada por diversas acusações de plágios, algumas infundadas e outras totalmente descaradas.

E qual a motivação desta análise? V.Ex.ª Alberto Costa, Betão para os íntimos, veio de sobressalto, em uma conversa descontraída de Zap, denunciar os absurdos cometidos por uma banda composta por quatro fedelhos de Michigan, EUA. “Quem são os caras?” perguntei eu. “Greta Van Fleet, já ouviu falar?”. Talvez por mera coincidência do destino havia lido uma matéria na internet sobre os ditos cujos, falando sobre a participação deles no Oscar, tocando com o vulgar Elton John (ironia detected). “E qual é a deles Albertones?” novamente indaguei. “É Led, saporra”. Não sei se certamente com estas palavras, mas o conceito é este. Pois bem, como sou um maníaco obsessivo por conhecer a fundo a história das bandas que aprecio, fui atrás como um viciado no auge da abstinência. Ouvi tudo que tinha de gravações de estúdio no youtube, vi boa parte dos shows disponíveis e, finalmente, dei-me conta de algo muito importante. Nós, roqueiros, sujos e morféticos, estamos extremamente carentes de um novo Led! 

Vivemos um momento da mais pura bunda molice no cenário mundial de rock, com falta de vontade, criatividade e uma inércia que parece não ter fim. Meu objetivo aqui não é denunciar outros estilos, respeito todos, de coração, pois a vida me ensinou a ser menos xiita e elitista com relação à música. O que me entristece é ver que o rock não produziu mais nada de relevante nos últimos anos, apesar de ter muita gente fazendo coisas legais, autorais, diferentes e artísticas, que vai de figurões do rock à bandas experienciando as margens do mainstream. A grosso modo, tá faltando novos movimentos como: grunge, punk, progressivo, alternativo, heavy metal entre outros.

“Voltou com tudo hein? Tá viajando na maionese!” Querido leitor, espero ao final deste post concluir com sucesso minha linha de raciocínio. Vá se preparando para o pior!

Por fim, se você acompanha o Blog, já deve ter notado que Led moldou meu caráter musical, e o de grandes músicos famosos pelo mundo, e, por este motivo, é a banda que pode ser usada como referência para qualquer outra que se aventure por aí. Não é raro ouvir “nossa, esta banda é o novo Led” ou “esta banda é o Led dos anos 90”. Estas frases podem ser replicadas também para Sabbath, Beatles, Floyd etc.

Em suma, Led é foda, amamos mais que x-bacon e estamos muito frustrados por nada tão bom surgir. Sendo assim, minha proposta é: traçar uma linha do tempo do Led, apresentando passado, presente e futuro, representados pelos discos, Led Zeppelin III (do próprio), Amorica (The Black Crowes) e From The Fires (Greta Van Fleet) em 3 posts distintos (ficou grande pra kct, era tudo um post só, então eu quebrei). Explico as escolhas posteriormente, confiem em mim. Vamos lá!

Led Zeppelin – Led Zeppelin III


O Led é o passado por razões óbvias, né, nem precisa explicar? Olha as caras de tiozões do rock ai! (O Robert ta parecendo a mistura do Oswaldo Montenegro com a Vanderléia)


Escolhi Led Zeppelin III para este post pois acredito que o disco seja o ápice da maturidade musical da banda, sem menosprezar, obviamente, os dois anteriores. Toda aquela fúria verificada no primeiro álbum, foi se dissipando, atenuando e o caminho a ser seguido ficou límpido e claro, com a banda finalmente alcançando o paroxismo da mescla “chumbo que flutua”. A escolha desta magnífica obra de arte embasará os comentários sobre o presente e futuro também.

Como uma fita rebobinando, sem precisar de caneta bic, a horda provinda de valhalla - o olimpo dos deuses nórdicos - traz o martelo voraz de Thor e cia, que açoita a carne da incauta humanidade. “Valhalla, I am cominggggg”. É isto senhores, aqui está Immigrant Song, uma das músicas mais barra pesada já feitas, com um riff absurdamente simples, em contraste ao gelo e o sol da meia-noite. Robert grita a plenos pulmões, estridentemente, rogando uma praga pestilenta sobre os ouvintes. Posso dizer sem medo da leviandade, que esta música me fez arder em paixão por Led. A despretensão total em não soar como um clássico, a torna épica. Afaste os móveis e tente não se jogar na parede enquanto escuta, ela passa rápido e não vale a pena morrer por ela (será?).


O próximo petardo já foi falado aqui no Blog, no post sobre o disco No Quarter, da duplinha carimbada Page & Plant. Friends perdura a despretensão da música anterior, porém é rica em detalhes. Um violão de afinação aberta, um Robert agudo de quebrar taça, sintetizadores, vozes não identificadas ao fundo, um vento que traz o gosto salgado das areias do longínquo deserto babilônico. Kashmir só veio no sexto disco da banda, e Friends, com certeza é o prelúdio. Possui um fim espacial que culminou em celebração. Celebration Day é o sarau de comemoração aos anos 70. Vamos cantas, dançar e curtir isso tudo. Começa como um country sulista, cheio de subversão blueseira, que te contagia. Mr. Page não poupou crueldade nas guitarras e é o grande destaque da música. Mr. Plant continua com sua voz irritantemente saborosa. Mas a cozinha está lá, John², mexendo essa panela com força, para não queimar no fundo. Ficou felizinho? Se prepare para o pior então.

Since I’ve Been Loving You é a melancolia em sua maioridade cívica. Pode ser só uma música de amor, porém atravessa o peito e te sufoca em lágrimas. Esta paixão hipócrita sai fervorosamente do coração e atinge em cheio as cordas da guitarra. No trecho em que Plant bate em nossa porta, denunciando a perfídia, a música explode em magnificência. Destaque para a frieza e precisão de Bonzo em agredir a bateria, como se estivesse fazendo ao amásio. Seria mentira dizer que esta é minha versão favorita desta música, principalmente para quem acompanha o Blog e já leu isto aqui, porém continua sendo meu ponto alto do disco.

A celebração volta em Out On The Tiles e a porrada come solta. Creio que esta música é o divisor de águas do disco, trazendo todo o peso visceral do Led, seja nos grandes riff de guitarra, na bela vocalização e na consistência baixo e bateria. O que vemos a seguir é uma mudança de andamento mais amena, em que o dirigível começa a revoar por terras mais “folk”. Aguente firme, pois Gallows Pole chegou para nos salvar, com uma bela pitada acústica, com um bom punhado de influência norte americana, ou seja, uma já conhecida receita de sucesso.

E o acústico continua e o country também em Tangerine, a primeira baladinha do disco, recheada de simples acordes em um belo violão 12 cordas - é tipo uma viola, só que a viola tem 10 cordas, porque gringo faz tudo melhor #ironiaagain. É uma melodia doce como uma mexerica mesmo, e inocente como uma paixão de adolescente.

A partir da metade o disco assume esta toada acústica e vai até o fim, e é assim que tem que ser: That´s The Way. John Paul Jones nos brinda novamente com um tímido bandolim, que propicia o clima dos fados lusitanos, já abordados em outro post sobre o Led. E ainda tem uma guitarrinha de colo, que acende um incenso floral ao fundo para transcendência espiritual.


Agora o momento mais polêmico do disco, pois aqui temos dois plágios, Bron-Y-Aur Stomp e Hats Off To (Roy) Harper. Pelo menos é o que nosso colega de longa data, google, nos diz. A primeira está na lista dos plágios de Jimmy a Bert Jansch (se você curte música folk da Escócia, Irlanda e agregados, PROCURE MAIS SOBRE ESSE CARA!!!!!!!!!!!!!!!!!!) e a segunda é mais um blues orgânico dos anos 20, talvez perdido em sua real autoria, que os caras do Led foram lá e kibaram. Plágio ou não, são músicas excepcionais, que exalam o fresco e fétido odor dos mangues formados no rio Mississipi, desaguando na terra do Jazz, New Orleans. Toda essa carga emocional está lá, seja no bumbo exagerado de Bonham, ou no slide ansioso de Page. Vale destacar que o disco termina onde o Led começou, no diabólico delta blues!

E aqui terminamos o passado, a fundição que concretou o rock de várias maneiras. Vários cantores apareceram depois cantando agudo de estourar taça, centenas de guitarristas colocaram a guitarra no joelho enquanto fumavam (tá bom, Keith Richards é o pioneiro), um monte de baixista que toca piano (Geddy Lee?) e por fim, mas novamente não menos importante, trocentos bateristas tomaram coragem e fizeram solos de 40 minutos.

To Be Continued...

Grande Abraço!

quinta-feira, 22 de março de 2018

BELOW THE WASTE - ART OF NOISE






Dou início a este texto me desculpando com aqueles que curtem um rock mais tradicional. E faço isso por conta do tema de hoje, o álbum "Below The Waste" do grupo britânico "Art Of Noise".

Para aqueles que não sabem, um dia eu já tive um programa de rádio, que se chamava Star Trips e ia ao ar todos os domingos na antiga FM comunitária Star Sul (na região do bairro Vila Santa Catarina, na cidade de São Paulo). E neste programa, o meu intuito era tocar o rock de todos os tempos, estilos e tendências... Certamente, o melhor do rock nacional e internacional passou pela programação musical do Star Trips.

E um dos quadros do programa era aquele que eu costumava chamar de "Fronteiras do Rock", onde eu abordava coisas inusitadas relativas ao mundo do rock. Era um segmento do Star Trips no qual eu mostrava aos ouvintes que música não tem limites e fronteiras e que, muitas vezes, misturas musicais das mais inusitadas davam resultados extraordinários.

E neste sentido, levei ao ar muita coisa diferente em termos de viagens musicais com viés rockeiro, tais quais o rock do Led Zeppelin sendo performado pela Orquestra Sinfônica de Londres (um projeto musical do músico britânico Jazz Colleman); a música do grupo alemão Van Canto (um sensacional grupo musical vocal, o qual faz o som dos principais instrumentos apenas com a voz e com a ajuda de pedais); projetos musicais nacionais tais quais Língua de Trapo, Premeditando Breque e Arrigo Barnabé; Giberto Gil cantando um rock swingado fenomenal; o projeto musical Moda de Rock (dos músicos e violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder); a musica viajante do Dead Can Dance; o post punk igualmente viajante do Cocteau Twins... E muito mais...

E a música do Art Of Noise fez parte do Star Trips através de diversas incursões na programação musical que eu elaborava. 

Por essas e por outras razões é que estou abordando neste canal cultural a "arte" musical deste sensacional projeto ART OF NOISE... E mais especificamente, o quarto álbum "Below The Waste", trabalho musical pelo qual alimento bastante admiração e carinho. Abaixo, temos a contracapa do disco (na versão em vinil).





ART OF NOISE - UM BREVE RELATO

Cabe aqui contextualizar este projeto musical através, inicialmente, de um breve relato sobre a história do grupo e de seus idealizadores.

O Art Of Noise, em termos de classificação musical, pode ser considerado como um grupo a ser enquadrado na categoria "avant-garde synth-pop". Mas há aqueles que classifiquem sua música apenas como "eletrônica", o que eu, de forma alguma, concordo. Na minha opinião, a música produzida pelo grupo é muito mais profunda do que isso, passando inclusive por momentos que podem até ser classificados como música clássica, jazz moderno, jazz rock ou tantos outros estilos e sub-classificações que surgem aqui e ali dentro das canções. Certamente que o termo "eletrônico" se encaixa no contexto, mas reduzir a música do grupo simplesmente a isso não me soa justo. 

O grupo(1) iniciou suas atividades em Londres, no ano de 1983, e foi formado originalmente por um conjunto bastante heterogêneo e inusitado de pessoas do meio musical britânico, a saber, o músico e produtor Trevor Horn, o músico e programador musical J.J. Jeczalik, o engenheiro de som e produtor musical Gary Langan, a compositora, tecladista e maestrina Anne Dudley e o jornalista musical Paul Morley.

Esta formação é a que predomina durante todo o período de atividade do Art Of Noise. O grupo manteve-se bastante ativo durante o período de 1983 até o ano 2000; depois disso reuniu-se apenas em algumas apresentações esporádicas; mas ainda considera-se que é um projeto musical em atividade. Entretanto, houve certa alternância de membros em diversos períodos, sendo que Anne Dudley foi a única integrante que participou de todas as fases do Art Of Noise.

Entre o período 1998-2000, o músico e guitarrista britânico Lol Creme também fez parte do grupo, sendo esta a única fase que não contou com J.J. Jeczalik.


  1. Notem que em todos os momentos eu me refiro ao Art Of Noise como um "grupo" musical; isto é um critério pessoal meu, pois não os enxergo meramente como uma banda, na medida em que eles não tem uma formação clássica com músicos que tocam guitarra, bateria, baixo, teclados e/ou outros instrumentos. Na minha visão, trata-se muito mais de um projeto musical, algo especial e fora do padrão, razão pela qual não consigo enquadrá-los como uma banda. Isto ficará mais claro no decorrer do texto.



Sempre que falo aos amigos sobre o Art Of Noise, via de regra, quase ninguém conhece. E se já ouviram falar ou mesmo ouviram algumas de suas músicas, estas são certamente a versão deles para "Kiss" (do cantor e compositor Prince), a qual conta com a participação do famoso cantor galês Tom Jones; e outra das músicas mais conhecidas do grupo é a instrumental "Peter Gunn" (composta originalmente pelo músico americano Henry Mancini), a qual lhes rendeu uma premiação no Grammy Award em 1986.


UM POUCO MAIS SOBRE A MÚSICA

Uma das principais características da música produzida pelo Art Of Noise é o uso bastante intenso de "samplers". Além disso, podemos dizer que grande parte das músicas são "colagens musicais", via de regra instrumentais, as quais mostram aos ouvintes passagens sonoras, em alguns casos, bastante díspares, com uma constante alternância melódica e sonora. E isto, certamente, causa bastante estranhamento nas primeiras audições.

Entretanto, é justamente esta alternância melódica e de sons que costuma atrair os fãs, principalmente os mais afeitos à música eletrônica e tecnológica.

Podemos dizer que, em termos tecnológicos, o Art Of Noise é um dos pioneiros em seu estilo, na medida em que Trevor Horn foi uma das primeiras pessoas a adquirir o "Fairlight CMI (Computer Musical Instrument)", uma das primeiras estações de áudio digitais associadas à sintetizadores de som e samplers que foram concebidas mundialmente (equipamentos originários de uma empresa australiana).

Os primeiros trabalhos do grupo foram classificados como "techno-pop" ou ainda "experimental rock".

Além das colagens sonoras, muitos outros elementos foram utilizados nas produções, tais quais vozes de pessoas notórias e trechos modificados de músicas famosas ou temas de filmes.

Outra característica bem forte que podemos sentir ao ouvir as canções é a alternância de melodias ora extremamente dançantes (recheadas de batidas fortes e muito cadenciadas) com outras mais suaves e contemplativas, tudo dentro de uma mesma faixa musical.


BELOW THE WASTE... FINALMENTE

Cheguei finalmente ao objeto da resenha.

Como dito mais acima, o álbum Below The Waste é o quarto trabalho lançado pelo Art Of Noise, sendo que o mesmo foi produzido, gravado e lançado entre 1988 e 1989.

Trata-se de um trabalho que não teve uma grande repercussão entre crítica e público. E talvez isto tenha acontecido por uma certa mudança de rumos em relação aos três trabalhos anteriores.

Na medida em que Anne Dudley e J.J. Jeczalik contaram com a participação do grupo musical sul-africano "Mahlathini and the Mahotella Queens", os quais aparecem em 3 das 12 músicas do disco, o trabalho como um todo acabou sendo considerado por alguns como "world music".

Certamente, o álbum tem algumas canções bem na linha "world music", entretanto eu não o classifico desta forma. Continuo a classificar a música constante deste álbum como "avant-garde synth-pop", uma vez que, o álbum como um todo está recheado de elementos musicais eletrônicos e samples bastante característicos da linha musical que o grupo aborda.

Todavia, concordo com a crítica no sentido de que houve mudanças significativas em relação aos trabalhos anteriores.

Acontece, porém, que tais mudanças de rumo, na minha avaliação, elevou a qualidade musical do Art Of Noise. As canções ficaram mais sofisticadas, mais melodiosas, mais ricas em termos de misturas de ritmos diversos.

Neste trabalho, o Art Of Noise contou apenas com Anne Dudley e J.J. Jeczalik (também assina a produção Ted Hayton).

Coube a Anne Dudley as abordagens musicais mais melodiosas e orquestrais; já J.J. Jeczalik certamente imprimiu um ritmo mais forte e mais dançante ao trabalho, concentrando esforços em colagens e passagens musicais repletas de batidas vigorosas e elementos musicais "funkeados" e também algumas doses de rock n'roll.

Falando agora sobre as canções, esta resenha contempla, na verdade, a versão de Below The Waste lançada originalmente em vinil, a qual tem algumas diferenças em relação a outras edições do disco.

Finalizo esta descrição geral do álbum destacando um detalhe bastante interessante aos amantes de equipamentos de som de alta fidelidade. A capa do disco conta a foto de um par de caixas acústicas estilizadas, fabricadas por uma das mais notórias marcas de equipamentos audiofônicos, a britânica "Bowers & Wilkins" ou simplesmente "B&W". Isto é apenas mais um indicativo de que estamos tratando de um grupo musical diferenciado, que pensa nos mínimos detalhes quando o assunto é a produção de um trabalho musical.


AS MÚSICAS


YEBO!


Canção com fortes elementos da música africana, YEBO! é uma das músicas que conta com o grupo musical "Mahlathini and the Mahotella Queens", o qual alia seu som repleto de arranjos vocais e batidas tribais ao som eletrônico do Art Of Noise. Há ainda algumas passagens musicais que contam com excelentes arranjos e riffs de guitarra, imprimindo uma pegada jazz rock bem interessante.


CATWALK

Excelente canção, repleta de swing e grooves. Lembrou-me os bons tempos da dance e funk music do finalzinho dos anos 1970. Música legal para você colocar no começo da festa; certamente vai fazer a galera se mexer e se intrigar com os diversos elementos sonoros que a tornam misteriosa e sofisticada.


PROMENADE 1

Interlúdio de pouco mais de 30 segundos que contrapõe totalmente a proposta musical da duas primeiras canções; melodiosa ao extremo, a música conta com arranjos orquestrais divinos, porém, tristonhos. Lembra um filme triste.


DILEMMA

Esta é uma das músicas do álbum que mais se enquadram na proposta original do Art Of Noise. Uma sequencia de batidas cadenciadas mescladas por samples de todos os tipos (vozes humanas que cantarolam melodias disformes, relincho de cavalos, cantos gregorianos, gritos e mais um sem número de sons). Tenho para mim que a grande maioria das pessoas vai pular esta música.


ISLAND

Peça musical de quase 6 minutos, Island é um primor de música. Melodia repleta de elementos orquestrais e piano, entremeada por uma batida suave e cativante, a musica certamente leva o ouvinte até uma ilha paradisíaca. No finalzinho da música entram em cena os clarinetes, conferindo à canção um ar clássico estupendo.


DAN DARE

Abrindo o lado B do disco, Dan Dare é mais uma das canções climáticas e enigmáticas do álbum. Porém, esta música equilibra bem os elementos mais melodiosos e orquestrais com batidas e levadas mais dançantes. Outro som que nos propicia momentos bem viajantes.


CHAIN GANG

Mais uma das canções que conta com os sul-africanos do "Mahlathini and the Mahotella Queens". A música começa com vozes femininas entoando um canto africano; logo em seguida entra em cena uma melodia permeada por uma batida em segundo plano, a qual funciona mais ou menos como um mantra percussivo, imutável nos primeiros minutos. Aos poucos a música vai crescendo em termos de vozes, elementos sonoros e instrumentais, até desembocar num arranjo "funkeado" e com riffs de guitarra bastante instigantes e dançantes.


PROMENADE 2

Mais 38 segundos de um lindo interlúdio. Momento para respirar fundo e se preparar para a parte final da viagem, a qual conta ainda com quatro cativantes etapas.


BACK TO BACK

Melodia extremamente cativante, aliando elementos melodiosos e levadas levemente dançantes. Guitarra e batidas proeminentes, esta é sem dúvida a música mais rock n'roll do disco.


FLASHBACK

Música de batida e levada fortemente jazzística, modernosa. Curtinha, com apenas 1 minuto e 45 segundos, quando você começa a gostar ela acaba... uma pena!


SPIT

Esta é a terceira canção do disco que conta com a participação do grupo musical sul-africano. Uma delícia de música. Acho que, dentre aquelas mais dançantes, esta é a que eu mais gostei. Além disso, o trabalho vocal é maravilhoso.


FINALE

Uma verdadeira peça clássica, nesta canção Anne Dudley nos envolve por completo com suas passagens musicais extremamente melodiosas. Trata-se de uma música criada por alguém que certamente tem uma sensibilidade musical das mais nobres. E fecha o disco nos deixando sem chão. Toda vez que a escuto, preciso ficar alguns segundos em silêncio para me recompor.



CONCLUSÃO

Finalizo esta resenha na certeza de que passei a minha mais sincera opinião sobre o ART OF NOISE e sobre esta maravilhosa obra musical contemporânea.

Espero, com este texto, sensibilizar a todos os leitores, de forma que o mesmo os façam querer ouvir o disco. E mais, espero que todos sintam a beleza e a força das canções.

Uma dica:

Numa primeira audição, recomendo estar só, num ambiente agradável, se possível na meia luz, saboreando um bom vinho. 

Um forte abraço e até a próxima.

Betão Star Trips

sábado, 10 de março de 2018

Acid Tree - Uma abordagem musical recheada de mistérios

ACID TREE



Salve Galera do Rock!

Estou de volta aqui neste canal de divulgação de rock tão especial. E neste retorno escolhi um trabalho muito especial, de uma banda brasileira, a qual faz uma música misteriosa e enigmática, recheada de elementos filosóficos e introspectivos.

Estou falando do ACID TREE, power trio paulistano composto por Ed Marsen (vocal e guitarra), Ivo Fantini (baixo) e Giorgio Karatchuk (bateria).

Vou iniciar a minha abordagem tratando dos aspectos musicais do grupo, pois estamos falando de músicos que mostram muita habilidade técnica e competência; em todos os sentidos. Tanto na performance ao tocar, quanto nas composições (e neste quesito, mais uma vez os caras são muito bons) as canções são bastante impactantes; sons atmosféricos, densos, intrincados, com fortes mudanças de andamento (às vezes se tornado um som bem pesado).

No quesito letras, eles viajam nessa mesma linha, ou seja, temas bem introspectivos e enigmáticos, os quais sugerem viagens em ambientes mágicos e sombrios; eu diria que eles exploram muito bem o lirismo poético nas canções e isso, por certo, sensibiliza muito o ouvinte.

Bom meus caros leitores, pelo o que eu pude apurar, eles já estão juntos desde 2013 (mas há registros na internet de que já em 2012 alguns dos membros do grupo estavam atuando de alguma forma). De concreto, conversei com Ed Marsen e ele registra como certo o ano de 2013. Enfim, para mim pouco importa se foi 2012 ou 2013. O primordial mesmo é que desde esta época eles têm trabalhado duro e com muita paciência no sentido de desenvolver a sonoridade da banda de uma forma muito especial. E todo este árduo trabalho e perseverança começou a dar frutos mais consistentes no ano de 2016 e mais ainda em 2017.

Foi no ano passado que eles resolveram efetivamente lançar o primeiro trabalho de estúdio (o álbum ARKAN), uma compilação musical que conta com 6 excelentes canções.

E pelo o que eu li num dos tantos registros que constam da internet, eles já tinham gravado estas músicas anteriormente, mas somente resolveram partir para a "prensagem" do disco no ano passado, justamente depois de consolidarem bem o trabalho junto ao público.

E neste sentido, eles mostram um profissionalismo bastante grande e demonstram na prática que o sucesso é algo que não surge assim do dia para a  noite; tem que trabalhar muito; ter perseverança; planejamento; estudar bem cada passo a ser dado. Por tudo isso, mesmo sendo uma banda de músicos jovens, eu diria que o grupo demonstra extrema maturidade, em todos os sentidos, mas principalmente em termos musicais.

E o sucesso começou a se materializar através de veiculações das músicas da banda na Kiss FM, por intermédio do Walter Ricci (locutor da rádio), o qual tem inserido músicas do Acid Tree em sua brilhante programação musical. 

Mas 2017 tornou-se um ano mais do que especial para o Acid Tree não apenas pela aparição da banda no rádio. 

O ponto alto se deu com a participação do grupo na "REBIRTH OF SHADOWS TOUR" de Edu Falaschi, onde o Acid Tree abriu todos os shows desta turnê, a qual passou por diversas cidades do território brasileiro. 

A tour terminou em São Paulo, no dia 21 de janeiro de 2018, em show que rolou no Carioca Club e que teve a participação especial de Kai Hansen (Helloween e Gamma Ray, entre outros). Ou seja, imaginem a abertura de portas que uma turnê desta monta não representa para um grupo de jovens músicos que está nos primórdios se sua carreira... deve ter sido sensacional!

Com relação aos planos da banda, muito trabalho já está sendo feito, na medida em que eles estão trabalhando num novo disco. E tais planos são realmente bem ambiciosos, pois eles querem produzir este novo disco todo na Suécia.

A intenção é gravar o disco no Fascination Street Studio, que é de propriedade de Jens Brogen, um dos grandes produtores musicais da atualidade (pelo o que eu me lembro, foi esse cara que produziu vários discos do Opeth). No caso, o produtor com o qual eles querem trabalhar é o David Castilho.

Falando agora em termos de sonoridade e estilo, o som do Acid Tree vai muito na linha de bandas como Opeth e Porcupine Tree, onde a banda trabalha com canções extremamente melodiosas, mas que aliam viagem e peso com bastante intensidade. 


ÁLBUM ARKAN



Com relação ao álbum Arkan, como já mencionado, se trata de um trabalho que conta com seis canções muito bem elaboradas e performadas, as quais resumem tudo o que foi dito acima.

O disco começa com a canção que o nomeia, ou seja, Arkan. Música que tem em seu bojo uma mistura muito bem equilibrada em termos de peso e viagem melódica; a canção literalmente nos leva por caminhos fantásticos e enigmáticos. Em termos dos elementos sonoros, guitarra, baixo e bateria vão se intercalando e se misturando a todo momento, sempre com a voz clara, limpa e afinada de Ed Marsen indicando a trilha a ser seguida. Não dá para dizer que há a predominância de um dos instrumentos em detrimento de outros. Neste ponto, podemos dizer, mais uma vez, que há um equilíbrio muito interessante nesta música.

Same Face vem na sequência, e se desdobra musicalmente mais ou menos na mesma levada da canção anterior. Ou seja, continuamos a viagem fantástica que o grupo nos propõe.

A terceira etapa da viagem é tão alucinante e intrincada quanto as duas primeiras. Estou falando da música Righteous Violence, canção de melodia suave e com intensidade crescente. Esta me remeteu diretamente à música de uma banda da qual sou muito fã... Violeta de Outono, grupo musical capitaneado pelo músico paulistano Fábio Golfetti e que fez relativo sucesso a partir de meados dos anos 1980, fazendo um rock psicodélico bastante cativante. Se você não conhece a música do Violeta de Outono, vá atrás, pois trata-se de coisa fina.

Milestones, a quarta música, é uma pequena joia encrustada no meio do disco. Com apenas 1 minuto e 54 segundos de duração, a canção (toda instrumental) nos propicia momentos de serenidade e contemplação muito ímpares. Viagem curta, porém intensa.

Quinta faixa... a coisa fica séria... acordes tristonhos e lânguidos de guitarra, seguidos de batidas rápidas... o vocal num tom igualmente tristonho... tudo revelando segredos de uma vida que talvez esteja próxima do fim... será? 

Adrift é o nome da canção que me trouxe estas impressões. Mais para o final da música, o solo de guitarra acaba por realçar o ar triste intrínseco durante toda a melodia da canção, a qual, logo em seguida, termina de forma tão fortemente angustiante quanto seu início. 

Ao ler estas palavras, talvez o leitor tenha a impressão de que eu não gostei da música. Nada disso! Melodias e letras tristes não indicam que a música seja ruim, muito pelo contrário. Entretanto, não recomendo que a ouça se você estiver num momento ruim de seu dia.

Chegamos por fim ao trecho final e mais longo da nossa viagem musical, a canção Caged Sun. Esta, sem nenhuma sombra de dúvidas, é aquela que carrega as maiores influências dos suecos do Opeth. 

A canção tem exatos onze minutos e diversas inversões de andamento. As levadas são fortes, porém com peso moderado. Mas no geral, as melodias são bastante densas e igualmente intrincadas.

Algo importante a ser reparado por volta dos primeiros 55 segundos de execução da música são os acordes muito parecidos com o trecho inicial da canção "The Devil's Orchard", a qual figura no álbum "Heritage" (10º álbum de estúdio do Opeth). Talvez uma homenagem à banda.

Observação: depois que escrevi o parágrafo acima, troquei umas ideias com o Ed Marsen e ele me explicou que, na verdade, eles usam a mesma escala e não os acordes. De toda forma, este álbum teve muita influência do Opeth, registrou Ed.

Enfim, caríssimos amigos do rock, vou encerrando a resenha com a forte recomendação de audição da música do Acid Tree.

Eu, do meu lado, vou acompanhar o trabalho deles, sempre compartilhando com vocês as minhas impressões a respeito da evolução da banda.

Ah... quase que já ia me esquecendo... Recomendo que ouçam o podcast Drops Star Trips, edição de nº 29, o qual foi produzido por mim e divulgado no meu portal Star Trips.

Neste podcast, além de falar um pouco sobre o Acid Tree, no final da locução eu coloco três faixas do disco para que os ouvintes conheçam o trabalho do grupo. Vale a pena conferir.


Forte abraço a todos e até a próxima.

Betão


ESTAMOS DE VOLTA!!!


Salve galera do rock!!!

Ficamos um tempo fora do ar, mas agora estamos de volta... Eu e meu parceiro do rock, Leandro Cenati, estaremos a partir de agora voltando à carga com postagens sobre os grandes discos, as grandes bandas (antigas ou novas) e vários outros temas relativos ao mundo do bom e velho rock n'roll.

Aguardem!!!!

Forte abraço.

Betão 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Opeth - Heritage

Bem vindos!

As londrinas tardes de maio da Paulicéia instigam-me a dissertar sobre bandas gélidas. Há tempos quero falar sobre esta maravilhosa banda, conterrânea de Ingmar Bergman, ABBA (eita?) e de uma infinidade de bandas de Black Metal. De alguma maneira o paganismo da mitologia nórdica inflou os corações dos habitantes destas planícies com satanismo, ódio e glórias, estas agora perdidas.





Por tanto, Opeth, natural de Estocolmo, é uma das referências do metal progressivo, elevando este vocábulo à sexta potência, pois inseriu o gutural em um contexto que só permitia sopranos (vide Dream Theater e seu James LaBrie). Realmente quando falamos de relevância vocal em música, o nome de Mikael Åkerfeldt (difícil de escrever hein) tem que ser citado, e ele poderia parar por ai, no entanto é o dono de todas as composições da banda e ainda arranja tempo para ser um fanfarrão nos palcos. Beleza, já inflamos bastante o ego dele, agora podemos prosseguir.

Para os fãs mais puristas este não é o melhor disco do grupo, é menos pesado e não tem os característicos vocais guturais. Em meu caso, foi a primeira obra completa que ouvi deles, transformando-me em fã absoluto, além de me levar a procura dos outros trabalhos, como o excelente Ghost Reveries de 2005, o meu favorito. Aceitei que gritaria em música pode ser muito legal. E lá vamos nós!



Segundo o próprio Åkerfeldt (viva o control + c, control + v) Heritage, que dá nome ao disco, é uma homenagem ao Jazz Sueco incutido no subconsciente da banda, uma linda e delicada música, harmoniosa por si só, não é rock, mas é de onde ele veio. O piano apresenta-se sozinho para nosso deleite.

E após o maravilhoso prólogo, enfim The Devil’s Orchard. O rock aparece diminuto, porém forte e magnificente. Elementos perdidos nos anos 70 estão de volta, teclados estilo Hammond, guitarras com distorções leves e bateria arrítmica. Mikael havia provado nos discos anteriores que é um mestre na criação de riff’s, e prossegue assim sendo. O trabalho nas baquetas é fora do comum, toda a música é pautada por elas, modulando os 3 momentos marcantes. Bandas que conseguem agir como uma coisa só são minhas favoritas.

I Feel The Dark remete-nos ao disco Damnation do grupo, que abdicou, em partes, das guitarras. O início é suave por demais, barroco, erudito e talvez Bachiano, Blackmore ficaria orgulhoso. Perceba o agradável timbre de voz de Mikael, aliado ao belo instrumental criado. Na metade da música surtos de Robert Frip e Cia alvejam a música, transformando-a imediatamente em um clássico setentista do King Crimson. John Wetton, Greg Lake e Bill Brufford ficariam felizes também. Se não sabe quem são eles, busque conhecimento.



Citamos Blackmore, dois parágrafos acima, certo? Olha ele ai outra vez em Slither! Esta é a versão Rainbow do mago das guitarras. Uma homenagem da banda a Ronnie James Dio e a uma das melhores épocas dele (se é que houve alguma ruim). Muitos acusam esta nobre melodia de estar fora do contexto do disco. Primeiro que o rock não é um quadrado no qual tudo tem que estar perfeitamente alinhado, segundo que canções fora de contexto só devem ser criticadas se forem realmente muito ruins. Diga-me se você não ficou com vontade de ouvir Long Live Rock ‘n Roll, ou Rising na íntegra depois dessa?
 
Nepenthe começa com uma brisa viajante, imagino-me numa praia deserta e nublada. O casamento poligâmico de baixo, guitarra e bateria, lembraram-me alguns discos de jazz que ouvi muito na minha adolescência, de Mike Stern a Jaco Pastorius. O que mais me fascina neste disco é a potência dos teclados, como faz falta a inserção dele decentemente nas músicas da atualidade, parece que todas as bandas o utilizam de forma equivocada. Observem que todos os solos de guitarra parecem friamente calculados.

Häxprocess prossegue a toada da anterior, aproveitando o ritmo suave que paira no ar. Martin Axenrot é o nome dele, o dono das baquetas e com alto nível de virtuosismo. Notem que ótimos arranjos e levadas, os pratos tocam na batida de seu coração, ou pelo menos ditam ela. Mikael arrisca riffs e notas sob a chancela de um violão de nylon. Viajem!

Famine começa estranha, uma flautinha aqui, uns tambores asiáticos acolá. O piano, jazz sueco, dúvida, Heritage, tudo retorna. Ouçamos Mikael acompanhar as notas com sua voz. Tomamos um rumo novamente, o grupo parece ter achado o caminho, eis que tudo desaba, e o King Crimson retorna. Muitas notas diminutas e demoníacas adentram o cenário. E nesta obsessão setentista, partem para o absurdo, fundir King Crimson com Jethro Tull. Dá certo e gera muita tensão no ar, quase arrancamos os braços da cadeira de tanto nervosismo, o coração bate mais lentamente...

The Lines In My Hand prova que o baixo também é muito foda, ditando todo o ritmo. As linhas nas mãos do hermano uruguaio Martín Méndez são o destaque, o resto são coadjuvantes. O violãozinho de Paco está no ar, mas o baixo é o baixo. Na parte final, a música fica mais Opeth velha guarda, mais porrada.

A intro de Folklore parece-me fruto de uma brincadeira descompromissada na guitarra, talvez um sacrilégio de minha parte. Na verdade, o álbum inteiro é uma brincadeira que foi longe demais. Você alguma vez imaginou músicos malvadões do gabarito do Opeth fabricando músicas como esta ou Nepenthe. Esta faixa é mais uma do hall das músicas silenciosas que já falei aqui no Blog, principalmente quando ouvimos um instrumento só e o silêncio que o acompanha nos contagia. Consigo elencar três momentos que se contrapõem, o silêncio, perseguido pela violência, e por fim, a progressão, dando um ar de elevação e evolução. E mais solos meticulosos de Åkerfeldt. Sim, é a música chave do disco!

E por fim, o encerramento dos trabalhos. Marrow Of The Earth é um momento intimista de Mikael, que multiplica sua criatividade nos arranjos, aliando guitarra e violão, alternando levadas e fraseados, riffs e muita intensidade. A banda prepara uma virada de mesa, dando a impressão de que teremos guerra, porém era mentira, sendo um simples acompanhamento até a saída. As notas finais poderiam se repetir eternamente...

Pois bem crianças, isto é Opeth, uma banda com sonoridade extremamente pesada, que sempre teve bom gosto em suas composições, aliando vocais limpos aos guturais e investindo no progressivo que já foi enterrado várias vezes. Para quem conhece bem a discografia da banda, todas as músicas deste disco poderiam estar em qualquer disco deles, só tiveram o trabalho de agrupá-las e aplicar certo "conceito", por isto não reclame e aproveite um clássico. E para quem está ouvindo a banda pela primeira vez, ouçam o restante do trabalho e aprenderão a gostar de pancadaria também.


Para quem gostou muito da sonoridade do disco, leiam a matéria do Whiplash com Mikael, na qual ele cita as referências usadas para compor. Descobri coisas muito interessantes. Link: http://whiplash.net/materias/curiosidades/149309-opeth.html

Por hoje é só!
Grande Abraço!

domingo, 26 de maio de 2013

Black Country Communion - Black Country Communion II

Bem vindos!

Queridões, este é o primeiro post de 2013! Por quê? Porque o país só começa depois do carnaval? Porque o dono do teclado estava de cama? Inoperante? Bom, a verdade é que não deu mesmo e é isso aí. Prometo escrever alguma coisa que preste. Onde paramos mesmo? A sim, aquela coisa que nos foi apresentada pelo Capeta, chamada Rock.



Nossa história de hoje começa com nossos amigos bretões, sempre, sempre eles. Ela começa em dois momentos diferentes um há mais ou menos 62 anos a trás e o próximo há 47 anos. Baixo com voz e bateria respectivamente. O primeiro entrou numa das mais consagradas bandas do Reino Unido com a incumbência de substituir dois caras. E como desempenhou bem tal papel. Substituir Gillan e Glover ao mesmo tempo é para poucos. “A, mas tinha o Coverdale, Leandro!”. E daí que tinha o Coverdale, quem berrava pra caralho era o Glenn Hughes e ponto final. O outro é fruto de bumbos com alumínio e vodka com suco de laranja. Ele não é o maior virtuoso do instrumento, porém tem muito feeling e é descendente da porrada em pessoa.  Jason, e não é o dos filmes, traz o ácido desoxirribonucléico de Bonham para a melodia.

Sacrilégio, você não vai falar dos inigualáveis Joe Bonamassa e Derek Sherinian? Não me sinto muito a vontade para dissertar sobre estes dois cidadãos. O primeiro deu um show de soberba e arrogância ao sair da banda e achar que é o próximo Rory Gallagher. A insatisfação dele com a banda para mim não é motivo para proibir os remanescentes de usar o nome. Coisa de menininho mimado dono da bola. O segundo quis que a platéia gaúcha achasse legal uma manifestação de patriotada em seu show com Yngwie Malmsteen, outro calhorda de marca maior. O público tupiniquim agiu com a mesma repulsa característica dos norte-americanos, e o babaca fala de terceiro mundo? Ainda bem que tem o terceiro mundo para alimentar a boca destes ingratos. Falemos de música.



A banda reapresentou ao mundo aquela fórmula mágica de guitarra, baixo, teclado, bateria e vocais rasgados. Sinto muita falta de músicos que façam isso de forma inovadora e consistente. Resgatamos este orgulho perdido nos três álbuns do Black Country Communion, e neste post falo sobre o meu preferido, o segundo (óbvio). Prossigamos.

Certo, não vou ficar detonando os rapazes supracitados, tecerei elogios, prometo. The Outsider vai para eles. Derek e Joe casam bem os instrumentos, remetendo-nos a Ritchie e Jon, ótimo sinal. O riff de guitarra cumpre o prometido na letra: “Kill the Reaper”, ou, matar o ceifador, trocando em miúdos, matar a morte. É um belo começo, com muita energia, revivendo a força “púrpura” perdida de outrora. Joe traz o peso da tonalidade da “Gibson” para um clássico genuinamente de “Fender”, mais precisamente colocou o Jimmy Page para tocar um petardo de Deep Purple. Acho que essa é a melhor definição para o Black Country Communion, Deep Zepplin e Led Purple.

E Man In The Middle é mais uma demonstração disso, sinta o peso das baquetas da Famiglia Bonham. Glen Hughes parou com as drogas (pelo menos assim espero) e deve estar viciado em Yoga para conseguir cantar deste jeito com mais de 60 anos. Estamos na segunda música e Bonamassa já provou que tem muita criatividade, fazendo riffs e solos novos, coisa nova e música nova. É muito bom saber que ainda existem guitarristas que glorificam a herança blueseira, em detrimento aos estudiosos da velocidade, afinal, a base de tudo isso que gostamos está lá. Balance sua cabeça.



Já ouviu Ramble On, né? Já ouviu Going to California? Já ouviu Led, né, meu filho? Pois bem, óia eles aqui em The Battle For Hadrian’s Wall. Os acordes do discípulo são referências exatas às músicas supracitadas, falando o vernáculo do Led. E o que achar do bandolim, à la John Paul Jones? Os vocais são mais suaves, desferidos por Bonamassa, que prova ser um músico completo, calando a boca do que vos fala, porém creio saber separar o profissional da pessoa, nesse ponto não há o que falar. A facilidade com o qual a banda transforma momentos suaves em pancadaria me empolga bastante. Ouça os detalhes e note um clássico sendo construído.       

Agora um pouco de “Come Taste the Band”, ou, “You Keep On Moving”. Save Me relembra este passado perdido, quando o Purple experimentou outro guitarrista e deu relativamente certo. A virada instrumental lembra outro clássico, Gates Of Babylon. Como é bom sentir a ferocidade da escala menor harmônica novamente, fora do contexto heavy metal da atualidade. Como é bom saber que Ritchie e Jon ainda vivem na música. Ao final a psicodelia do grupo aparece um pouquinho e bends longos de Bonamassa perfuram nossa alma. Aleluia, aleluia.

Mais uma com clima altamente rock ‘n roll, quebrando um pouco a introspecção de Save Me. Smokestack Woman, não tem muitos segredos a serem desvendados, é a junção de força e riffs na sua essência, com o encaixe de um solo estilo “Summer Song” do xará Satriani. Um pouco dos gritos de Glenn caiem bem também.

Faithless oscila e disfarça. Começa deveras calma, dá uma má impressão. Uma escala que sobe escadas e depois desce de novo. O refrão é mais forte e intenso, porém, mesmo assim permanece calmo. O solo é rápido, tem um pouquinho de Stargazer, um pouco de Mistreated também, ou seja, quase uma sopa de letrinhas, mas com muita personalidade, não parecendo ser um cover de algo. Ao final, mais um sonoro John Paul Jones, agora nos teclados.

E novamente Bonamassa destaca-se no que faz de melhor, voz e cordas, por isto o critiquei no começo do post, ele detinha muita autonomia na banda, poderia ter aproveitado mais, enfim. Ordinary Son é outra que oscila de característica. Forma uma relação muito intimista entre guitarra e voz blueseira de Joe. As viradas cortam toda esta harmonia, culminando nos alegóricos gritos de Glenn. Vimos então uma perfeita parceria vocal, lembrando-nos de Hughes e Coverdale, guardadas as devidas proporções. O solo é cheio de Clapton a Gallagher. Queria que este filho ordinário não tivesse fim.

I Can See Your Spirit veio do mesmo embrião de The Outsider e Man In The Middle. Praticamente uma bastarda, uma filha com muitas mães. Possui tudo aquilo que já saboreamos bastante aqui no blog, riff pesadão, voz rasgada de Hughes e solo feroz e eficiente. E de tira gosto ainda rola um belo solo lordiano de teclado.

E agora um pouco de Since I’ve Been Loving You. Hein? É isso mesmo, Little Secret é formada primordialmente da fórmula matemática, blues lento + tom menor = sofrimento, que deu muito certo com o Led. Claro, como disse anteriormente, esta não é mais um cover e possui muita personalidade, porém os elementos estão lá, música que cresce, tem peso na guitarra, é coberta por um teclado que enche a melodia e a voz é sôfrega. A referência a Rory Gallagher continua, escute A Million Miles Away dele e chegue à suas conclusões.

Crossfire relembra um pouco da carreira solo de Glenn Hughes, principalmente o disco Soul Mover com Chad Smith do Red Hot Chilli Peppers na bateria. É a música com mais daquele swing que sempre marcou a carreira dele. Baixo e voz fazem este Mojo musical.

E por fim, na minha singela opinião, a melhor música do disco. Para quem possui o DVD Live In Europe sabe que Glenn dedica Cold a todos os amigos que já se foram. Não sei por qual motivo, mas ela sempre me causou uma tristeza funérea, depois que ouvi o DVD descobri o porquê. Escute a punhalada fria e certeira que este slide de Bonamassa crava em nossos corações. A voz aguda gela ainda mais esta ponta de lança. Por volta dos três minutos um riff mais ardiloso tenta aquecer nossos corpos, mas já é demasiado tarde.

Em especial gostaria de destacar o ótimo trabalho desenvolvido por Jason, ele realmente introjetou a estilística pesada de seu progenitor e incorporou-a na sonoridade da banda, empregando muita força em todas as músicas. Outro ponto forte da banda era a parceria Hughes Bonamassa, suas vozes e instrumentos completavam-se em nível quase espiritual. Pena os egos inflamados ainda permanecerem neste meio. Agora é aguardar mais notícias sobre o destino dos remanescentes e que venha algum guitarrista a altura. Sou pessimista e acho difícil haver continuidade que mantenha o nível apresentado até aqui.

Desculpem o hiato, quero voltar a escrever.

Grande Abraço.             

domingo, 18 de novembro de 2012

Jeff Buckley - Grace


Bem vindos!

Após um breve silêncio de minha parte, por estar me dedicando ao culto do cinema um pouco, retorno para falar de um artista que me fez crer que a melancolia existe na forma de vinte e duas casas de metal. Sua música me foi apresentada em um momento crítico de meus estudos musicais. Ainda estava no ensino médio e começava a me familiarizar com o finado movimento grunge, ou seja, um momento de transição e amadurecimento musical. Um dia, conversando com um professor de guitarra, despretensiosamente, fui informado que o artista em questão fazia acordes estranhos e possuía uma voz incrível. Espantou-me descobrir futuramente que ele influenciou grandes nomes da atualidade, como Coldplay e Radiohead.



Jeffrey Scott Buckley é mais um do litoral pacífico dos EUA, praticamente vizinho de Zappa e sua Sun Village. Não foi um dos filiados do clube dos 27, errou por três anos, com uma morte no mínimo besta e muito triste. Praticamente seguiu os passos de seu pai, em todos os sentidos. Era muito parecido de fisionomia, possuía uma voz belíssima, morreu jovem, e, em vida, não galgou um sucesso astronômico. Com muita sensibilidade, Jeff trouxe novamente um sentido relevante ao timbre da Fender Telecaster. Oficialmente só temos um registro legítimo de sua genialidade e transcendência musical em forma de disco, no qual abordaremos hoje. Sketches For my Sweetheart the Drunk é o segundo disco, mas que só foi lançado postumamente, pois o próprio músico o rechaçou. Prossigamos!

Mojo Pin é o típico início misterioso para um disco. A voz é bem aguda e sua tonalidade é feminina. Jeff prova desde o começo de Grace seu total domínio da guitarra, tanto nos dedilhados límpidos e suaves em sua Fender, como na implosão distorcida dos acordes no refrão, que deixam feridas profundas e sangrentas em nossas almas. Jeff camuflava seus acordes depressivos e amargurados com singelas letras de amor, talvez por não existirem vocábulos certos para traduzir suas dores que chafurdavam em depressão. Mais fácil falar de amor mesmo, já que ele explana a maioria das mazelas humanas.


Grace apresenta-nos mais acordes diferentes e abusa deste recurso. Essa é aquela música que você vai aumentando o volume conforme ela vai passando. Os vocais beiram ao lírico, acompanhando as letras que falam sobre a tristeza suicida que tratei acima. Nos momentos que não há letra, Jeff complementa com melodia alegre, quase como uma injeção de morfina direta na veia. Ainda resta tempo para inserir complementos psicodélicos, uma microfonia aqui, um violino acolá, além de um violão que toca bem ao fundo e dá muito ritmo à música. Mais um dos hinos da geração dos anos 90, adulta, dopada e inoperante, que esperava o seu fim, porém esta fadada a velhice.

No voto ao romantismo vem Last Goodbye. Agora os acordes trazem menos melancolia e mais encantamento, já que Jeff quer o último abraço e beijo de algo que nunca dará certo. O recurso do slide lembra até as passagens de Jimmy Page utilizando o arco de violino em sua Les Paul. Em todo o disco você notará um toque do dirigível de chumbo, aqui fica a cargo dos acordes fora de contexto que fazem a ponte com violinos.

De James Shelton e interpretada por vários artistas, até pela Miley Cirus (recursos de estúdio não faltaram), Lilac Wine foi feita para vozes femininas, impressionantemente a de Jeff é a melhor de todas. A limpeza de hospital do timbre da Fender em conexão com o tom quase soprano do músico é tudo o que esta música precisa, mais nada. O vinho lilás está envelhecendo há anos, seu teor alcoólico vai diretamente para a cabeça e coração.



So Real é mais uma das canções parecidas com Mojo Pin, traveste o teor arsênico de suas melodias com reflexões amorosas. Jeff chega a ser irritantemente perfeito na mescla de acordes diminutos com acordes menores e maiores, o que deixa sua música cheia de altos e baixos, interpolada por uma tensão constante, que não nos deixa nunca. Os gritos estridentes passam direto pelos tímpanos e fluem direto em nosso sistema linfático, carregando todas nossas dores de volta para dentro. Aos ouvidos mais atentos o dirigível de chumbo aparece em alguns momentos novamente.

Com um profundo suspiro, começam os próximos minutos mais atormentados de nossas vidas e talvez a canção que mais tornou Jeff famoso: Hallelujah. O pai da criança é Leonard Cohen, o famoso poeta e músico canadense, porém, passou ótimas férias na casa de Buckley e nunca mais voltou para casa. Tudo o que aconteceu em Lilac Wine é feito novamente, respeitando toda a orientação dada nos versos iniciais da música: “Mas você não liga muito para música, não é?/E assim vai a quarta, a quinta,/O acorde menor cai, e o acorde maior sobe,”. A letra casa muito com toda a filosofia musical do guitarrista, e em alguns minutos parece ter sido escrita por ele. Escute-a de portas fechadas e sem interferências. Ainda bem que músicas assim existem, Aleluia!

Lover, You Should've Come Over, continua com a proposta de Last Goodbye, trazendo acordes e melodias mais doces, pautada pelas tensas diminutas. Em alguns momentos a letra parece bobinha, melosa e cafona, porém, como já repeti várias vezes aqui no blog, acho que tudo tem que ser analisado no contexto que está inserido. Jeff rompe o contrato, unilateralmente, com a depressão cáustica dele, e para isto, utiliza de alguns métodos famosos, como acordes no Hammond, leves toques na bateria, coral gospel e muita blue note. Não pule no player, você aprende a gostar dela.

Corpus Christi Carol está no grupo de Hallelujah e Lilac Wine, todavia tem componentes de música clássica e finalmente Jeff assume o tom soprano de vez. Muito pouco foi alterado da versão original. Nunca achei uma música tão “silenciosa” como esta, se assim posso dizer.

Finalmente Jeff mostra o quão letal ele pode ser, recuperou suas forças e fez Eternal Life. Tanto melodia como letra agridem nossa opinião e moral cristã, afrontando nossos conceitos de “vida eterna” e expondo um pouco do conceito de correspondência, ou lei da causa e efeito. Falando tecnicamente, acredito que esta é a tradução de uma música de Rock, tem peso, força e faz você refletir sobre sua enfadonha e medíocre vida. Os riffs de guitarra expõem um lado paradoxal do artista, que gosta de apostar em acordes diferentes que se encaixam. Coloque ai na lista das músicas “joelhada no rim”.

E, por fim, talvez a mais importante de todas, Dream Brother. Aprecio, e muito, músicas finais que fazem a síntese do disco. Tudo o que vimos anteriormente aparece aqui. Acordes ficcionais (ou seja, na prática eles não existem), grandes interpretações vocais, potentes riffs de guitarra (que nos lembram que estamos em um disco de rock) e uma letra que finalmente tenta traduzir os sentimentos ininteligíveis de Jeff. Para eternizar ainda mais este artista, aquele clima arábico, que tantos monstros da música utilizaram, aparece no meio da música, deixando tudo mais épico ainda. Acho que faltam letras neste teclado que vos escreve, capazes de explicar tudo o que sinto ouvindo esta canção. Descobri este som há mais de dez anos, e ainda parece ter relevância para mim.

O que nos resta agora é continuar buscando as centenas de bootlegs que Jeff nos deixou antes de morrer, para tentarmos aliviar o luto de sua perda.

Por hoje é só!
Grande Abraço!