domingo, 23 de setembro de 2012

Uriah Heep - Live 73'


Bem vindos!

Aproveitando o ensejo do Alberto, que dissertou sobre Uriah Heep, darei minha humilde contribuição, enriquecendo o cardápio de álbuns a serem ouvidos.



Uriah Heep é o tipo de banda que demora a chegar até você e te deixa puto por ter vivido cego, na ignorância por tanto tempo. Novamente o culpado foi o senhor Alberto, que me apresentou fragmentos de Damons & Wizards. Sinceramente minha vida nunca mais foi a mesma depois deste dia. Eram os teclados de pura tensão? A guitarra mal-intencionada? Os vocais sublimes? É tudo isso ai mesmo. E então veio a música The Magician’s Birthday. Tudo nela é perfeito. O baixo que joga contra de Gary Thain, a voz aguda de David Byron, a guitarra de Mick Box e seu solo matador, a boa levada de Lee Kerslake e, por fim, Ken Hensley com teclados insanos.

E o enigma do dia é: o quê há na água de Birmingham que criou bandas tão foda (com perdão do verbete)? É isso mesmo colegas, esta é mais uma das bandas da comarca sabática. Deveria ter algum portal aberto da sexta dimensão. Quem sabe? Neste post falarei sobre mais um álbum ao vivo, vocês já conhecem minha predileção por eles. E lá vamos nós!



A introdução não conta, então vamos direto a Sunrise. Começo enigmático, os tímpanos reverberam aos vocais agudos e bem afinados, aliados ao timbre louco de Ken Hensley nos teclados. A guitarra é outra coisa que impressiona, pois é muito pesada para os padrões da época. É pessoal, Uriah Heep é metal dos bons em pleno começo dos anos 70. Escute a voz de “Lord” Byron e me diga se ele não é inspiração para a maioria dos cantores de metal da atualidade?

Sweet Lorraine traz a mesma proposta de teclado de Sunrise. Inspirada na homônima de Nat King cole? Acho muito difícil! É a representação da versatilidade da banda, que sempre que pode, intercala Boogie Woogie com magia negra celta, e, neste caso ainda encontrou tempo para colocar um pouquinho de funk na guitarra de Mick Box. É fácil de perceber isto, quando aos dois minutos de música, Ken Hensley entrava a banda com sua ingerência nos teclados e transforma o som.

Traveller In Time continua a proposta das duas primeiras, muita bordoada na cara, em todos os instrumentos. Injeções de calmaria bem pontuais por Sir. Byron. O requinte de crueldade está nos minutos finais, quando Lee Kerslake desce o cacete na caixa e dá início a um riff extremamente simples, mas mortal. Guitarra e teclado conversam e se tornam iguais. David Byron dispara seus agudos de novo. Que petardo!

Não tem vida fácil, não! Easy Livin’ é um dos maiores clássicos ao lado de Lady In Black. É uma das músicas que mostra mais a personalidade da banda, sempre que a escuto, não consigo me lembrar de nenhuma banda que tenha feito algo parecido.  A dupla Box/Hensley foi uma das melhores coisas que aconteceram para a música, não consigo pensar em heavy metal nos dias de hoje sem lembrar-se deles. E fazem isto com muito pouco, a melodia desta faixa é deliciosamente simples, porém tocada com todo o efeito e empolgação da banda são imbatíveis.

E agora um dos grandes momentos do disco. É não existem palavras para descrever o que senti quando ouvi July Morning pela primeira vez. Perfeito, acho que esta é palavra. Como disse no parágrafo anterior, não há nenhuma genialidade ou complexidade extrema nos arranjos instrumentais da banda, mas o jeito que são feitos, como são combinados guitarra e teclado, trovando com o baixo de Gary Thain, além das grandes interpretações de Byron, nos fazem crer que tudo está perfeito. A viagem aqui não tem fim. Posso elencar dois momentos que são os mais importantes, o riff inicial, amuado e simplório do teclado que inicia a coisa toda. E depois, a violência de guitarra e teclado no recheio da música, que travam uma batalha épica, utilizando os mesmos golpes, as mesmas notas e força. O intermediador desta batalha é Byron, que grita alto e agudo, mas eles não querem parar. Não é bem um solo e nem tampouco é um riff, este é o jeito Uriah Heep de fazer música. E, assim como Sabbath, foram um dos introdutores das notas consideradas demoníacas pela igreja católica. Pegue o caderninho de novo ai meu filho e coloque esta como uma das melhores da sua vida!



Um pouco de rock ‘n roll e blues para limpar a sujeira deixada por July Morning. Tears In My Eyes é o jeito Uriah Heep de abordar a música negra americana. Este timbre de guitarra estalado pelo Wah Wah de Mick Box com slide é a manifestação realística da ultraviolência do filme Laranja Mecânica. David Byron até tenta apaziguar, de novo, em vão, com um “nananananana”, porém não dá certo. Desista Mr. Byron!

Em tempos distantes, o amor cigano era retratado acusticamente, em forma de tangos, bulerias, tragédias etc, entretanto, nem todos partilham da mesma predileção. Gispy é a manifestação sintética e diabólica do quinteto para este amor impossível e sui generis. A guitarra faz o papel de acompanhamento, tipo bife à parmegiana que vem com batatas. É gostosa, mas não é necessariamente o que queremos. O prato principal é o teclado de Ken Hensley, constante e estridente como todo o soar do grupo. O sintetizador Moog é a novidade, ele aparece na maioria das músicas pregressas, porém nesta faixa está em evidência, materializando todos nossos sonhos e paixões, com este gosto de molho de tomate e queijo. Dá tempo ainda para um bom solo de bateria de Lee Kerslake, um grande show dos anos setenta sem este recurso não existia.

Uriah Heep também sabia fazer letras profundas, que falam de morte e coisas do além túmulo, isto não é monopólio do Led. Circle Of Hands foi acusada por alguns de ser muito parecida com July Morning, por ter uma forte entrada de teclado, vocais agudos e grande instrumentalização. Acho que este é o tipo de crítica destrutiva, pois joga à mesmice o que podemos chamar de personalidade musical da banda. Seria o mesmo que acusar o Deep Purple de ter riffs grudentos. O destaque fica para Ken Hensley, que novamente formata a música ao seu gosto, enchendo de teclados, com efeito, e misticismo nas letras.

Look At Yourself tem isto tudo que falei acima, no entanto, esta versão tem um algo a mais da de estúdio. Quem a canta no álbum de mesmo nome é Ken Hensley, já no Live 73’ é Byron que faz essa tarefa, resumindo, consertaram a cagada. Nada contra os vocais do tecladista, mas David é uma das almas deste grupo, escute ele interagindo com a platéia e gritando à la Ian Gillan. O solo de guitarra sujo, meio errado, com bastante Wah Wah foi com certeza uma das influências para as bandas grunges, principalmente Soundgarden.

Magician’s Birthday foi tipo um “parabéns para você” de empresa, curtinho, nem deu tempo de chegar no: “E pro Fulano nada... tudo!”. Triste, adoro essa música =(

E na máquina do amor nos divertimos. Love Machine é curtinha que nem Easy Livin’, outra bordoada. Riff principal bem simples, três ou quatro notas no máximo e muita distorção na guitarra e piano, deixando a música muito suja. Esta era o tipo de canção que a banda aproveitava para dar show, fazer caras e bocas e empolgar os presentes.

E por fim um pout pourri para a galera. Rock ‘n Roll Medley junta as músicas: Roll Over Beethoven/Blue Suede Shoes/Mean Woman Blues/Hound Dog/At The Hop/Whole Lotta Shakin' Goin' On. Em linhas gerais é um pouco avessa à sonoridade da banda, que perambula pelo profundo, taciturno e ocultismo, por tanto, sentimos certa dureza nas linhas instrumentais, todavia, a afinação e sincronia na execução dos vocais nos mostram a força colaborativa da banda, trabalhando como uma unidade celular. Por isto, sempre quando penso em Uriah Heep, nenhum membro em específico me salta a mente, todos fazem seu papel, sem atravessar ninguém. Um jeito lúdico e entusiasmado de encerrar este ótimo registro ao vivo. Destaque para os uivos na parte de “Hound Dog”.

Concluindo amigos, Uriah Heep é uma banda que passou por diversos momentos de sua história, sempre prevalecendo os conturbados, como brigas, mortes etc. A formação de Live 73´ com certeza foi a mais criativa e poderosa de todas elas, a sinergia demonstrada e a intensidade de suas composições servirão de influência para muitas gerações ainda. Este álbum é a síntese de tudo que o grupo construiu de mais glorioso em sua história. O peso das distorções, tanto de teclado quanto de guitarra, aliados aos belos e agudos backing vocals que serviam de pano de fundo para Lord Byron, talvez nunca mais sejam feitos que nem os meninos de Birmingham faziam.

E por hoje é só!
Grande abraço!

2 comentários:

  1. Fantástico texto! Parabéns e obrigado por saudar novamente o Uriah Heep!!!

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  2. Amo o Uriah Heep e infelizmente deixei passar por minhas mãos sem notar a sua grandiosidade... não explodiu como outras bandas da época, por não conquistar o público norte americano... eu na minha humilde opinião deve-se ao fato de não ter uma grande guitarra criativa, um grande músico sim, mas tocava quase tudo em uníssono com o grande Kensley... que por sua majestade dominava o grupo... principalmente a guitarra... entenda-se também que buscavam a harmonia e talvez por isso esse músico não tivesse tanta liberdade... mas isso é história... talvez nunca saberemos... mas para quem gosta de um rock único, diferente de tudo, englobando vários estilos... o Uriah Heep é imperdível... não se pode morrer sem ouvi-los...

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