segunda-feira, 30 de julho de 2012

Deep Purple - The Book Of Taliesyn


Bem vindos!

Caros amigos, não sei se é de conhecimento popular, mas dia 16 de julho a música perdeu um de seus maiores representantes. Jon Lord, o poeta lírico dos teclados, perdeu a batalha contra o câncer no pâncreas, maldita doença que nos tirou Ronnie James Dio em 2010. A proposta agora é falar do disco que me apresentou Jon Lord, e que para mim é o que ele está mais atuante e versátil. Tenho certo apresso por este registro, pois foi a primeira coisa que ouvi da banda, sem contar smoke on the water.



The Book of Taliesyn é o segundo álbum da banda, não tem Ian Gillan, nem Roger Glover, mas tem o mago (não o do palmeiras) Blackmore e o geminiano Jon Lord. Duas feras, nervosas, duas forças abscissas e mortais. Blackmore não usava sua tradicional fender stratocaster, por tanto, seus solos são jazz, mesmo assim pesados para os padrões. Jon Lord, bom, como sempre, dispensa comentários. Vejamos!



Listen, Learn, Read On é simplória, parece um prólogo, convidando-o ao deleite do experimentalismo dos jovens britânicos. Estranhamente Nick Simper, o dono do baixo, faz linhas muito interessantes enquanto Rod Evans cantarola versos. Blackmore faz um solo barulhento.



Wring That Neck é a mais purple, tocada muitos anos depois ainda pela banda. É jazz, blues e a coisa toda. O riff inicial dobrado por Lord e Blackmore é divino, coisa de gênio. O tecladista inicia o virtuosismo, inspirado nas viagens do jazzista Jimmy Smith, solando na penta blues em dois tons. Blackmore entorta a guitarra, tira as notas do lugar, vejo até os trastes andando no braço da guitarra, principalmente na parte final, em que toca espaçado, todas fora de escala. Procurem as versões de trinta minutos desta música, tocadas no festival de Mountreaux e divirtam-se.   

Kentucky Woman é um cover de Neil Diamond, mais uma estilo blues. Nunca ouvi a versão original, e nem quero ouvir. Bem anos sessenta. Duas linhas de teclado dão este ar. O solo de guitarra de Blackmore novamente mostra o quão ele era diferenciado, inserindo elementos novos e fugindo do lugar comum dos guitarristas blues rock da época. Aos dois minutos e dezesseis, escute com atenção. Dá para não gostar de Jon Lord? O cara mistura as escalas menores harmônica da música clássica com rock e blues e faz tudo em tom sublime. Pela primeira vez ouvimos o que será o estilo lordiano daqui para frente.  E continua...

Exposition / We Can Work It Out é a próxima demonstração de música clássica da duplinha infernal. E mais Beethoven e acepipes. Tudo regado aos tambores de 2001: Uma Odisséia no Espaço de Ian Paice. O começo lembra tangos e tragédias. De novo Jon Lord, sempre ele! E mais um cover, agora dos Beatles. Também prefiro a versão do Purple, mas não me matem. Acho que a banda deu raiva a ela, principalmente pelos solos de Blackmore e Lord. Veja como este bate no teclado perto do fim da música.

The Shield é a deslocada. Jon Lord utiliza-se de três linhas de teclado, apostando mais no piano limpo. Outra música em que é o destaque. Há certo tom de tristeza em suas linhas melódicas, não vemos raiva. Blackmore dobra suas linhas de guitarra, recurso muito utilizado posteriormente. Aos dois minutos e meio, reparem o que Lord faz, bate em seu hammond de um jeito que lembra bongôs e percussão. O solo de Blackmore está na lista dos meus preferidos, é a primeira vez que utiliza a alavanca. O final é ritualístico. Que bela música. Deep Purple já era fantástico em 1968, sem Gillan e Glover.

Os primeiros acordes de Anthem parecem linhas de aula via k7. Mesmo assim, acho a escolha deles muito interessante, mesmo sendo relativamente simples. Rod Evans canta de um jeito que nos remete ao Elvis. A parte interessante acontece na metade, quando Lord e Blackmore põem todo seu lado orquestral para fora, abusam de Bach, Beethoven e agregados e ainda por cima colocam violinos. Isto estava em suas almas e provavelmente morreu junto à de Jon Lord. Repito, Deep Purple foi a única banda que colocou música clássica no Rock sem ser chato. Escutem esta canção novamente e comprovem!

2001: Uma Odisséia no Espaço de novo! Talvez tanta referência, deve-se ao fato do filme ser do mesmo ano do disco. River Deep – Mountain High é mais um momento lordiano. Cheio de soberba. Foge ao estilo Deep Purple de fazer música, porém mostra uma banda cheia de criatividade e personalidade, ao misturar o tema de um filme com um clássico que ficou famoso com Ike & Tina.

Eles estavam muito crus ainda, admito, todavia, fascina-me a presença vibrante e diferenciada de Lord em todas as faixas, fazendo coisas incomuns. Não é à toa, que Rick Wakeman, o segundo melhor tecladista de rock da história em minha opinião, segredou em recente entrevista sua grande admiração por ele.



E aqui fica minha homenagem ao mestre do Purple e do Rock mundial! Descanse em paz, Jon Lord.

Grande Abraço!

domingo, 22 de julho de 2012

Frank Zappa - Apostrophe (')


Bem vindos!

E por fim, Apostrophe (‘)!



1974, Zappa já experimentara muitas coisas musicalmente, satirizou o movimento hippie em “Freak Out!”, exauriu os músicos em “Uncle Meat”, flertou com o comercial em “Hot Rats”, reinventou o jazz em “Grand Wazoo” e “Waka-Jawaka”, e, finalmente fez os seus mais aclamados pela crítica: “Over-nite Sensation” e “Apostrophe (‘)”.



Os estilos dos dois últimos são idênticos, todavia, “Apostrophe (‘)” é meu favorito depois de “Roxy & Elsewhere”. Frank abandona de vez The Mothers e vira “ele mesmo”.  As letras são as mais duras e loucas que já vi na música, além de um censo de humor anacrônico, pronto para ferir qualquer moral cristã. É uma ótima aula de como se fazer sátira. Alguns humoristas da atualidade poderiam aprender com ele.



O vento norte, proveniente da Tundra zappística, sopra. Don´t Eat The Yellow Snow é o começo de um discurso imortal, “Cuidado por onde os huskies passam/E não vá comer aquela neve amarela”. O tema é simples, quatro notas diferentes que vão e voltam muitas vozes são escutadas ao fundo. Frank insere notas cantadas, como no jazz, “Bop-bop ta-da-da bop-bop Ta-da-da”. Ok, não entendemos nada!

Nanook Rubs It continua a Transiberiana, se assim podemos chamá-la. A partir deste momento identificamos a tentativa de Frank em montar uma ópera rock, ao estilo dos álbuns feitos na época, narrando uma luta com um caçador de peles de bebês foca. Esta é mais uma das típicas músicas R&B de Frank, muito suingue em sua voz, ritmo nos teclados de George Duke e a introdução dos vocais das Ikettes, famoso trio de vozes de Ike & Tina. Aos três minutos, uma ótima virada, com os famosos instrumentos de sopro da banda.




St. Alfonzo’s Pancake Breakfast continua a toada de álbum conceito, porém ao estilo Zappa, não há muito sentido, nem é para ter. Ruth Underwood finalmente aparece com seu xilofone, e começa bem. Na metade da faixa, o momento mais Zappa até o momento, xilfone e teclado se abraçam, ritmados pela bateria de Ralph Humphrey. Father O’Blivion é a continuação rápida da última. Aqui se nota a crítica aberta e hermética à Igreja católica, o que Frank fez a vida inteira, misturando sexo e cultura celta, que miscelânea. Os riffs de guitarra são limpos e rápidos e a bateria muito forte. E o R&B continua...

O disco conceito termina em Cosmik Debris que é a mais engraçada. Minha imaginação vê Zappa vestido de guru charlatão indiano, em uma clara sátira a estes. A melodia é um blues puro e seco, sem firulas, com um ótimo solo de guitarra. Destaque para as Ikettes e Tina Turner, que dividem os vocais com Frank. Aliás, somente um músico do gabarito dele, para envolver vocalistas desta magnitude em seus projetos.

Excentrifugal Forz prova que estamos diante de um disco novo, ou pelo menos diferente. Serve apenas como ritual de passagem para a próxima. A introdução é magnífica, escutamos a guitarra-violão acompanhada de um violino baixinho. E muitos solos errados de guitarra. A voz de Zappa morre abruptamente.

Apostrophe é um pouco diferente da essência de Zappa. Parece uma Jam Session natural dos anos 70, quando os músicos tinham o hábito de se encontrar após os shows, para barbarizar seus instrumentos, em pequenos bares. Os solos cheios de graves de Zappa e Jack Bruce (isso mesmo, o grande baixista do Cream) formam um caldo de cana americano escocês.

Uncle Remus escrita em parceria com George Duke é mais uma crítica aos americanos abastados de Beverly Hills, usando como referência as histórias de temática social do Tio Remus (busquem conhecimento). Duke faz ótimos acordes no piano, que se interpelam as letras. Frank prova como estava em constante contato com as tonalidades da música negra dos Estados Unidos, tanto nos vocais das já supracitadas Ikettes e Tina Turner, como nos solos de guitarra, meio tortos, é verdade, mas com muito efeito.

Stink-Foot é faixa mais interessante do disco, primeiro por tratar-se de um blues com ritmo à moda antiga, com uma letra hilária e escatológica, em que Zappa descreve um pé fedorento e um diálogo existencial com seu cachorro. É a prova cabal da prolixidade do autor durante todo o disco, embebida pelos marcantes ritmos afro-americanos.

Paradoxalmente a todos seus trabalhos pregressos, notamos a força da guitarra em todas as músicas, que sola na penta blues na maioria dos casos. Os instrumentos que não pertencem essencialmente ao Rock, como o xilofone e naipe de metais, aparecem somente em momentos muito pontuais, dando certa normalidade a toda obra, o que mostra uma autocrítica musical de Frank, transferindo o falatório usual de seus instrumentos, para as longas e ininteligíveis letras. Por fim, notamos sua genialidade, quando apaziguou a virtuose de “Grand Wazoo” e a transformou em crítica, provando que para entender Zappa, só conhecer música não é o suficiente, é necessário descobrir a arte em todos os sentidos.  

Encerramos Zappa!
Grande abraço!

sábado, 14 de julho de 2012

Frank Zappa - Uncle Meat


Bem vindos, autônomos do saber!

 Dissertemos mais sobre o inconfundível Frank Zappa.

Ao final dos anos sessenta, Zappa já havia emplacado grandes obras musicais. Este foi o período do The Mothers Of Invention, um dos mais “cricas” de sua carreira. As letras eram ácidas, corrosivas, e as performances ao vivo, teatrais. Histórias deste período não faltam. Foi também a época em que começou a misturar trechos de músicas ao vivo, com faixas de estúdio. Para quem tem uma noção mínima de música, sabe que o cara tinha que ser um metrônomo humano para desempenhar tal façanha.


Devo adverti-lo que este disco foge completamente de tudo o que você provavelmente já ouviu anteriormente. As músicas são todas relativamente curtas, tendo apenas algumas de maior duração. Inserções cinematográficas funcionam como gôndolas, discriminando faixa a faixa. Para o bem de todos, não escreverei sobre elas, já que são difíceis de compreender, mas quando for escutar o disco, tente ouvi-las. Suzy Creamchesse estará lá te esperando.


Uncle Meat: Main Title Theme marca o começo do experimentalismo mais profundo de Zappa, apostando na percussão. Notem, são notas batidas no xilofone, e acompanhadas pela bateria, e por um teclado estilo cravo. Depois temos barulheira e Suzy Creamcheese, personagem “principal” do disco.

Nine Types Of Indrustrial Pollution aprofunda mais o experimentalismo pregresso, retirando todos os instrumentos, colocando uma infinidade de instrumentos de percussão e adicionando uma pitada de guitarra limpa, estéril, estilizada e rápida. Frank mostra que sabe ser músico e sabe ser maestro inconscientemente. Zolar Czakl acompanha a pregressa e mostra uma nova cara para o tema apresentado na primeira faixa do disco. Os ouvidos mais aguçados notarão que Uncle Meat: Main Title Theme aparecerá vestida diferente muitas vezes.

Dog Breath, In The Year Of The Plague é uma das mais interessantes, principalmente pela diversificação. Tem folk, ópera, jazz, arritmia cardíaca, frenesi, vocais fazendo papel de instrumentos, ou seja, tudo! No minuto final temos dramaticidade.



The Legend Of The Golden Arches (os títulos são todos grandes assim mesmo) flerta com a proposta de Nine Types Of Indrustrial Pollution, percussão e notas malucas, só que agora no naipe de metais. E no minuto final, mais dramaticidade. Suzy Creamcheese aparece mais uma vez, meio que anunciando Louie Louie (At The Royal Albert Hall In London). Está é a demonstração da capacidade de síntese de Frank, que junta trechos ao vivo, com trechos de estúdio, e nos faz engolir tudo isto. Sem dar tempo de respirar começa The Dog Breath Variations e Sleeping In A Jar. A primeira apresenta mais variações dos temas anteriores, executados por xilofone, violão e clarinete. A segunda se parece mais com as faixas feitas nos álbuns anteriores do Mothers Of Invention. Música e letra “non-sense”. Mais e mais Suzy Creamcheese.

Para que tanta segregação instrumental Frank? The Uncle Meat Variations repete os temas novamente, e de novo separa instrumento, parece querer ouvi-los de forma única, não quer orquestrar. Formigas cantando ópera? O que você fumou para fazer este disco, hein, Frank? E depois, Electric Aunt Jemima, que é engraçada de tão absurda.

Prelude To King Kong é o prelúdio ao que há de mais magnífico em termos musicais. Aguardem e confiram. God Bless America (Live At The Whisky A Go Go) e A Pound For A Brown On The Bus são a prova do orgulho nacionalista de Frank. Para quem conhece o figura, sabe que isto não é um elogio.

Ian Underwood Whips It Out (Live On Stage In Copenhagen) mostra a liberdade artística que Frank propiciava a seus músicos. Ian Underwood se apresenta em ambos os sentidos, primeiro nominalmente e depois formalmente. Frank diz: “Arrebenta!” e Ian não falha na missão. Nós ficamos sem fôlego por ele.

Mr. Green Genes finalmente é uma música completa, não tem remendos e junções. Os saxofones são o ponto alto, principalmente o tenor. A melodia é arrastada lá no chão, não tem forças para se levantar. Os momentos de pausa no vocal são pautados pelo enérgico xilofone. Frank mostra ter encontrado o uso perfeito para o instrumento, talvez por isto ele seja utilizado em todo o disco. E começa com ele em We Can Shoot You, mais uma faixa com momentos de intimidade e autoflagelação dos instrumentos.

The Air é a mais engraçada e bem humorada. A letra é cantada tão devagar, que até para os péssimos na interpretação do idioma bretão, como eu, conseguem entender alguma coisa. É uma ótima sátira ao rock brega dos EUA.

Project X começa com uma ótima levada apaixonada de violão, o clarinete de Ian Underwood dá emoção à faixa. Mais xilofone e instrumentos de sopro. O violão volta sozinho... a percussão nos assusta. A música termina e começa de novo, com a marca registrada do disco: arritmia, descompasso, notas fora de escala, tríades com cromáticos etc. Cruising For Burgers é a mesma coisa, no entanto é apoteótica, e Frank usa a segregação dos instrumentos de uma forma mais atraente aos ouvidos mais incautos.

Lembram-se do prelúdio que falei acima? Pois bem, olhe ele aí! King Kong Itself, I, II, III, IV, V e VI é a manifestação do gênio em forma de notas pretas. Esta música vale o disco. Temos dois destaques, os instrumentos de sopro e bateria. O riff feito por eles te faz prender a respiração e torcer para que ele não pare nunca mais. É jazz, senhoras e senhores, como diria Frank, de um jeito peculiar. Cada parte de King Kong conta com um solo distinto, sendo o da quinta parte o mais diferenciado e lúdico, por não ter uma condução lógica e contar com um ótimo efeito, que o deixa rasgado. A guitarra de Frank serve como um coringa, tem groove, malícia e contorna os solos com um lápis preto, de ponta bem grossa. Não é possível ouvi-la direito, no entanto tem papel fundamental. A parte VI é a prova material deste sonho lúdico proposto por Zappa. E para concluir, mais loucura instrumental.

Aqui está a faceta sessentista mais interessante de Zappa, nem o ótimo debut Freak Out! vence este disco.

Finito!
Grande abraço!

domingo, 8 de julho de 2012

Frank Zappa - Roxy & Elsewhere


Bem vindos!

Desde que iniciei os trabalhos deste blog, quero fazer um post sobre o cidadão, porém é uma tarefa extremamente difícil destrinchá-lo. Sobre qual álbum falar? A discografia é muito extensa, composta de oitenta, (isso mesmo OITENTA, algumas bandas fizeram sucesso com cinco discos e olhe lá) completamente diversificada. E como falar sobre técnica e composição? Este artista desfruta de um portfólio musical impressionante, quase inclassificável. Resolvi arriscar-me, mesmo assim.



Frank Vicent Zappa é o nome deste ítalo-americano carcamano, que possuía ascendência francesa, grega e libanesa também. Por ser um mestiço de várias culturas, em um país que desaprova tal miscigenação, sua música e arte tem um caráter questionador e transcendental. As influências vão de Stravinsky, R&B e jazz, muito jazz, apesar de ter dito uma vez que o jazz não estava morto, só cheirava estranho. Dentro de meu conhecimento musical, noto que Frank criou um estilo somente dele, sem precedentes históricos, podendo se enquadrar assim aos grandes nomes da música internacional, como Bach, Beethoven etc. E o melhor, criou grandes obras de arte sem a interferência das manobras toxicológicas comuns da época, era genial por si só. 

E agora, sobre qual disco falar? A discografia tem oitenta discos! Resolvi falar sobre os três que considero meus favoritos. Roxy & Elsewhere, Uncle Meat e por fim o mais famoso de sua carreira Apostrophe. Começarei pelo primeiro (não me diga?!). 



Trata-se de um registro ao vivo, duplo e gravado em Hollywood, Califórnia, com talvez o melhor plantel de músicos que Zappa já teve, mesmo não contando com os geniais Jean Luc-Ponty e Ian Underwood. Destaques para George Duke, o dono dos teclados e vocais soul inconfundíveis e Ruth Underwood, esposa do supracitado Ian, representando o xilofone, instrumento que alia percussão e melodia. Zappa é hors concours e sempre será o destaque por trás de tudo e de todos. Mas por que decidi começar com este? Além do que já citei acima, acredito ser está a fase de maior maturidade musical do artista, além de ser a mais criativa, contando com algumas releituras fantásticas de suas próprias músicas. Vamos ao disco.

Penguin In Bondage começa com o prolixo Zappa introduzindo uma canção de letra totalmente sem sentido, como sempre, ou para os puristas, um pingüim na servidão. Hein?! A melodia é simplória para os padrões do disco e do músico, no entanto é um ótimo blues/funk. Conta com um divertido solo de guitarra do mestre, meio sujo e cheio de efeito. Prestem atenção em duas coisas, os sons esquisitos que permeiam a música, geralmente pautados pelos naipes de metal, e a letra que não fala nada com nada, em mais uma clara atitude provocadora de Frank, que não era muito adepto das letras, colocando-as de forma anárquica, na maioria de suas composições.

Pygmy Twylyte tem o mesmo clima da anterior, letras doidas, notas simples, só que com menos blues e mais peso nas guitarras. A banda trabalha duro, se acompanha por toda parte, com leves inserções de cada instrumento, em momentos espaçados. Isto é uma das marcas registradas de Zappa também, o respeito coletivo e individual de cada instrumento. Tudo é friamente calculado com precisão cirúrgica. E isto em apenas dois minutos de música, o que mais vem por ai?



Dummy Up está mais focada nas performances teatrais dos shows de Frank à época. A crítica é extremamente ácida ao ensino de uma forma geral, principalmente sobre o ensino superior, que na visão do autor, está preenchido de nada, fazendo até uma alusão as drogas, que são largamente consumidas neste período da vida. Em uma de suas frases célebres, ele diz não suportar o fato das pessoas usarem as drogas como aval para agirem como idiotas. Lendo sobre a vida e filosofia de Zappa, você provavelmente entenderá melhor está música.

Um pouco da história de Frank em forma de música: Village Of The Sun. Outra melodia mais simplificada, com muitos momentos jazzísticos, principalmente nas viradas de teclado. O clima soul nunca sai dela, notamos isto na voz de Napoleon Murphy Brock e na tonalidade do teclado de George Duke. Podemos sentir a brisa na cara, da cidade, apesar da letra dizer o contrário. Aos dois minutos temos uma ótima virada, dando êxtase à sonoridade, destaque para o cow bell (ou sino de pescoço de vaca) que aumenta o clima interiorano. Ao final uma conexão perfeita a próxima.

Echidna's Arf (Of You) é a tipificada. Notamos o estilo que Frank queria explorar nesta fase de sua carreira. É impossível ouvir e não achar que é dele. Os ligados, as notas fora de contexto, as mudanças de andamento, as diminutas, semi-diminutas e o próprio rock and roll em si. Aos três minutos e cinco segundos, achamos que vai acabar. Ai, fomos surpreendidos novamente, fica mais complexo ainda, dando-nos a impressão de que não acabará nesta vida, toda a banda se acompanha.

Don’t You Ever Wash That Thing? é a mais jazz de todas, causando inveja até em Miles Davis, John Coltrane e Cia. Cada parada diz alguma coisa, que não conseguimos entender. Primeiro destaque: Walt Fowler, com um ótimo solo de trompete, mostrando que Zappa propiciava o improviso em suas músicas, e que magnífico exemplo. Segundo destaque: George Duke um dos maiores talentos que já tocou com Frank, fazendo um solo de teclado a parte das críticas, magistral, imponente e mais tudo o que você achar, vários estilos musicais são identificáveis. Terceiro destaque, mais um solo, agora de baterias, já que a banda possuía dois, sinceramente acho que é um dos poucos solos de bateria que possui contexto e não é chato. Zappa destila algumas notinhas, mas ainda não chegou a hora dele.

Cheepnis faz uma “homenagem” aos filmes de terror de baixo orçamento, hoje em dia considerados Cult. Falando de melodia, não há muito que dizer, é rápida e meio barulhenta até. A tosquice denunciada permeia a melodia, todavia nota-se a complexidade de praxe em alguns instrumentos, como baixo e teclado. A meu ver, a música mais engraçada do disco, principalmente quando se ouve algo parecido a música japonesa. Não sei por que, mas sempre me lembro das películas de Quentin Tarantino quando escuto esta faixa.

O blues Zappaniano retorna, cheio de funk e ritmo em Son Of Orange County. Assim como em Penguin In Bondage, a melodia é simplista, utilizando-se de riffs até clichê para um artista desta criatividade, porém tudo feito pelo “mestre” é pensado e repensado sempre. Creio que esta faixa apenas serve como uma passagem para o que vem depois, já que conta com um inconfundível solo de guitarra. Provavelmente a música mais “californiana” de Zappa. Muito boa de ouvir, relaxante até.

More Trouble Every Day é a releitura do clássico do álbum “Freak Out!”. A faixa original é mais folk, meio blues caipira. A letra fala sobre as revoltas nos bairros negros do sul dos Estados Unidos, uma das mais sérias de Frank. Neste show a música vem vestida diferente, em um vestido rosa de bolinhas amarelas, bem largo. E agora sim a guitarra de Zappa é o grande destaque. Este solo me fez admiti-lo como um de meus guitarristas preferidos, provando que não era somente um grande compositor, mas também um músico exímio. Logo no começo sentimos a ferocidade das notas lançadas por sua Gibson SG.  

E finalmente, Be-Bop Tango (Of The Old Jazzmen’s Church). A meu ver, a música mais complexa que Zappa criou, a prova disso são os pedidos de calma que ele faz a toda banda antes de iniciá-la. O andamento feito nesta versão, não nos faz notar que se trata de um tango. Começa absurda, caótica, surrealista, com xilofone e trompete enlaçando-se. As notas, os músicos, os instrumentos, nada conversa e faz sentido. Espere! Preste atenção, tudo faz sentido sim, o que não faz sentido são seus conceitos sobre música em geral. Às vezes me pergunto como Frank colocava todas estas notas malucas em uma partitura, e mais, como conseguia dar papéis diferentes para cada instrumento e os fazer conversar? Aos três minutos, após a desordem, escuta-se o trompete solo, acompanhado apenas pelo baixo, oscilando pelo jazz de outrora, variando dentro de temas anacrônicos. E por fim cessa. Zappa faz uma inserção interessante, propõem aos membros da platéia dançar sobre os temas cantados e tocados por George Duke. Frank tira altos sarros da platéia, causa furor entre as mulheres e diverte. Para finalizar um ótimo blues capitaneado por Duke e seus teclados do inferno, com mais um solo abafado de Zappa. Toda a banda é apresentada e fim!

Que show! Meus parabéns aos privilegiados que puderam acompanhar os três dias de gravação deste petardo musical. Pena ter nascido nessa época de atrofia musical. Zappa foi a prova viva de que o Rock n Roll é mais do que só guitarras, pode possuir milhares de instrumentos atuando em conjunto e ainda por cima se auxiliar da tecnologia para explorar sonoridades ainda desconhecidas.

Vida longa ao mestre!

Por hoje é só!
Grande abraço.

sábado, 30 de junho de 2012

Mastodon - Crack The Skye

Bem vindos!

Após um hiato de alguns dias, volto a escrever e delirar. Vamos pesar um pouco esse som e sair um pouco do monumental, porém tudo ao meu estilo. Falarei sobre mais uma banda da nova geração que merece muitas atenções. O mastodonte se aproxima com suas presas de marfim e derruba tudo. Isto resume toda a sonoridade da banda. Arrasadora e mortífera, no entanto, o álbum em questã é mais viajado, mais progressivo, mais instrumental, mais e mais.



A banda, oriunda de Atlanta, Geórgia, nasceu no começo dos anos 2000, com um line up de quatro músicos talentosos. Não há muito virtuosismo no quesito variedade de instrumentos e sim muita porrada nas duas guitarras e bateria. Prestem atenção no dono das baquetas, não estranharia ele figurar em breve em alguma lista de melhores. Partamos!


Oblivion começa com trinta mil tons abaixo, em fi bemol, muito grave e de certa maneira, simplória, lembra os modos do grunge dos anos 90, principalmente Soundgarden. O ritmo aumenta, remetendo-nos ao thrash metal, como megadeth por exemplo. O refrão apazigua a situação e deixa até um ar meio pop, as guitarras se dobram e desdobram. A guitarra faz três belos solos dentro da moda pentatônica blues. Brann Dailor (o dono das baquetas) quase afunda a caixa. Ao final o riff fica grave novamente, demonstrando toda a força heavy metal da banda. Acho que competência e energia a definem.


Divinations é curtinha, todavia parece durar uma eternidade. O banjo irônico, desferindo um riff de metal em suas cordas trastejantes é arrasador, pura genialidade. O riff de toda a música é puro thrash das melhores épocas, muito sincronizado e intocável. O vocal de Brent Hinds (o dono dessa voz com lâmina de barbear na epiglote) se mistura perfeitamente com a melodia e clima musical. O solo começa solo, vira base, se transfigura e mente. É um solo duplo, rápido, muito bem encaixado e sem muita frescura, marca registrada de todo o disco.



O primeiro flerte com o progressivo começa agora. Quintessence tem passagens com vocais limpos e suaves, quase impensável em trabalhos pregressos da banda.  Muitos riffs oitavados, uma vertente muito utilizada nas bandas de hardcore da atualidade, no entanto, parece ter um sabor e uma utilidade diferente. Por volta dos quatro minutos as guitarras cortam os efeitos modernos e dão bordoadas à moda antiga. Em momentos diversos ouvimos pianos incólumes, distantes e afrouxados. É o progressivo de outrora dando suas caras timidamente.

Opa, estamos no disco errado? Child In Time é a próxima? Que teclado de Jon Lord é este? Isto é heavy metal de verdade? Não, estamos nos transportando à Rússia czarista, as mortes ocasionadas pela tirania e o gelo siberiano parecem estar presentes em nossos ouvidos. The Czar era tudo o que queria ouvir no rock atual. Um ótimo riff, leve e pesado ao mesmo tempo, que gruda na cabeça, tocado repetidamente, acompanhado de um teclado Jon Lordiano. E mais, muitas viradas de ritmo, o refrão parece com o de Quintessence, marcando mais uma delas. Os solos de guitarra, que novamente parecem riffs, parecem bases, parecem solos são inquestionáveis. Desde a época de Lynyrd Skynyrd não via guitarras sendo usadas em conjunto com tanta perfeição e altivez. Por volta dos sete minutos, os teclados Lordianos são tocados em rewind, talvez à hora mais Floydiana de todo o disco. Notem, quantas referências pregressas pude citar em uma única música apenas. O solo (realmente solo) vertiginoso do fim era o que estava faltando, puro abuso de quem já abusou bastante. Tudo se encerra nos teclados novamente, parecendo até os de No Quarter.

Ghost Of Karelia começa de maneira oriental, extremamente asiática, revelando o lado mestiço das fronteiras soviéticas. As guitarras outra vez duelam entre si e mostram poder tirânico sobre tudo que é tocado. O teclado Lordiano está lá, mas bem apagado, só serve para abaixar a luz e dar um clima. A bateria segue as guitarras em todos os momentos, não sei nem como isto é possível. Em conformidade e conjunção à última, a faixa que dá nome ao disco se inicia. Crack The Skye começa demasiadamente leve, viajada e semi anestesiada, porém temos gritaria e Troy Sanders (o baixista e vocal ogro) não poupa esforços em deixar a coisa mais demoníaca. A voz de robô é estranha, muito estranha. Em algumas partes temos a leve impressão de black metal. Elementos quase subliminares são injetados em sua mente, carecem de uma percepção aguçada de som para notá-los.



Ainda na vibração das cordas de Crack The Skye, The Last Baron apresenta-se. Como em todo o disco as guitarras estão muito graves ficando próximas as tonalidades do baixo.  Os primeiros minutos são pautados por ótimos acordes dedilhados, meio distorcidos, meio acústicos. A pauleira aumenta um pouco, e podemos ouvir alguns corais muito interessantes, com vozes jogadas ao vento. Então, aos cinco minutos a coisa fica séria, grave e animalesca. A banda honra o nome grande, portentoso, fazendo ligados de guitarra dobrados, como nunca antes se ouviu, e o melhor, não gera bocejos como algumas bandas de metal progressivo (não citarei nomes). Por não desfrutarem de muito carisma, provavelmente a dupla das cordas mais fina do grupo nunca terá o reconhecimento merecido, uma pena. Ao final a calmaria gélida retorna, sendo finalizada por um ótimo solo, sem firulas de Steve Vai, seco, firme e bem casado com a proposta da música.

E, finalmente, o álbum encerra-se com uma ótima surpresa, as duas primeiras faixas são executadas novamente sem a adição dos vocais. Podemos encarar como uma preguicinha da banda, que não quis compor mais, ou podemos concluir que há contexto. Achei muito interessante, pois nos dá um norte de quão intensa são as melodias desenvolvidas pelo grupo, às vezes até, dispensando as letras. Dou-te um conselho, após ouvir o disco inteiro, ouça as duas faixas novamente, com e sem letra, e, deleite-se.

Recomendo ouvir um trabalho anterior à Crack The Skye, Leviathan, e o posterior também, The Hunter. São três obras completamente distintas, que mostram facetas diferentes do conjunto. Notará também que cada álbum tem um integrante mais atuante, em Leviathan o mais atuante é o baixista Troy Sanders. Em Crack The Skye, nota-se uma influência maior do bode da montanha Brent Hinds, guitarra principal. Em The Hunter, o baterista Brann Dailor atua em quase todas do grupo. Isto não tira os méritos de Bill Kelliher, sua guitarra base é o alicerce da banda, lembrando até o trabalho de Malcom Young no Ac dc, além de apoiar nos vocais guturais como ninguém, basta procurar os vídeos da banda. Todo time precisa de um bom zagueiro também, nem tudo é só ataque, e mesmo assim eles aparecem às vezes para cabecear e fazer um gol.

Mastodon é o que o rock precisava, a volta dos Riffs malucos e pesados, com muita e muita guitarra. O rock sem guitarra não é absolutamente nada. Além de ter revitalizado o conceito artístico de disco conceitual. Já emplacou os três últimos assim, é só notar a psicodelia das figuras que selecionei acima. Aguardemos mais!

Encerramos!
Grande Abraço.

WOLFMOTHER - COSMIC EGG - 2009

Salve Galera do Rock!!!

Demorei a aparecer. Mas não foi por outro motivo senão a correria do dia-a-dia. Todavia, volto com tudo e falando sobre uma banda que nos dá um alento muito grande quando pensamos que os nossos ídolos do passado estão, assim como nós, ficando velhos e atuando cada vez menos e seletivamente na cena rock mundial.

E este grupo de rock do qual falo hoje é a prova viva de que, ao contrário do pregam alguns, o rock não está morrendo. Definitivamente não! Pode até não estar aparecendo muito. Mas continua vivo e com força total, recriando, reinventando, inovando, dando novas roupagens, misturando. Enfim, o rock está ai firme e forte e o WOLFMOTHER (assim como outras boas bandas novas) é prova disto que afirmo agora.

Falando rapidamente sobre a banda, trata-se de um grupo de músicos australianos liderado pelo guitarrista Andrew Stockdale, um "garotão" com cara de anos "70" e vocalista vigoroso, o qual mescla em seu estilo de cantar as características de grandes "performers" setentistas, tais como Ozzy Osbourne e Robert Plant. Enquanto guitarrista, Andrew é um setentista convicto, viajando ora pelo Stoner, ora pelo psicodélico. Enfim, o cara é bom e reúne credenciais que o levaram até a participar do primeiro trabalho solo de Slash em 2010. Ou seja, não é para qualquer um.

A discografia da banda ainda é pequena. Porém, consistente. São dois álbuns. O primeiro leva simplesmente o nome da banda e reúne 13 belos petardos rockeiros, dos quais destaco a forte e emblemática "White Unicorn", música com pegada stoner e com momentos de pura viagem. Vale a pena conferir. Já o segundo trabalho da banda, Cosmic Egg, é fenomenal. E é neste álbum que vamos nos ater.

Front Cover



Back Cover



A versão do álbum da qual estou falando é uma edição especial e importada, a qual conta com dois Compact Discs. E a mesma me foi gentilmente emprestada pelo meu grande amigo e rockeiro, Ricardo Nascimento, um cara que entende muito de rock e que possui um acervo de álbuns de rock bastante consistente. Valeu Ricado!

Mas vamos falar das músicas. O disco 1 já começa maravilhosamente bem, com a canção California Queen, música que reúne tudo que um bom rockeiro gosta, desde um bom vocal até solos de guitarra desconcertantes, passando por riffs e batidas marcantes. O disco ficasse só na abertura já valeria a pena.

O disco segue com New Moon Rising, mas destacarei a "swingada" White Feather, música mais despretenciosa, mas muito gostosa de se ouvir. Esta é uma ótima canção para embalar festas.

A próxima canção a ser destacada merece até mudar de parágrafo. Estou falando de Sundial, uma canção que poderia facilmente ser incorporada a qualquer um dos primeiros trabalhos do Black Sabbath. A começar pelo riff inicial, o qual foi notoriamente inspirado (e por assim dizer, "chupado") em N.I.B. do Sabbath.

In The Morning começa melodiosa e um pouco "melosa". Porém, após os primeiros acordes a música fica mais encorpada e nos embala através de riffs de guitarra bem fortes e um vocal agudo e melodioso de Andrew, seguida de uma sequência viajante com um solo de guitarra espetacular.

O disco 1 conta mais três canções, duas delas seguindo a linha stoner (10.000 Feet e Cosmic Egg). A última, Far Away, não empolga e é, na minha opinião, alternativa demais para um álbum que parecia ter uma proposta setentista. Entretanto, nada que desabone o trabalho da Banda.

O disco 2 também começa muito bem com Cosmonaut, uma somzeira forte e ao mesmo tempo viajante, alternando momentos hard e psicodélicos, embalados pela voz marcante de Andrew Stockdale.

E disco segue na pegada ora stoner, ora hard com Pilgrim, Eyes Open, Back Round e In The Castle (esta música tem algo de Rush, mais especificamente o começo, o qual me lembrou o 2112). Um aparte faço com relação à canção Caroline, mas não é necessariamente um elogio, pois sempre que escuto o disco pulo esta música. É muito melosa para o meu gosto. Mais uma vez, saliento que isto em nada compromete este álbum. Aliás, escutem-na, pois gosto é algo muito subjetivo. E de repente vocês venham a curtir a canção.

A penúltima canção do disco 2 é Phoenix, com uma batida bem interessante e diferente, regada a várias distorções de guitarra e também solos bem legais e que antecede o "grand finale" do disco.

Violence Of The Sun é de longe a melhor música do disco 2 e quem sabe do álbum inteiro. Para ser sincero, divido minha preferência entre ela e California Queen. Mas não há como negar que esta música tem algo a mais do que as demais. Primeiramente, é uma canção que fala de amor de forma poética, usando a força do sol como figura de linguagem para expressar os sentimentos avassaladores de uma paixão. Mas o  ponto forte e tocante da canção é sua melodia cadenciada, a qual vai crescendo em força e vigor com uma base maravilhosa de baixo e bateria, incorporando vocais agudos e guitarras ora distorcidas, ora melodiosas. Eu diria que é uma canção para se ouvir sozinho, principalmente se você está apaixonado.

Muito bem. Espero ter passado para todos os amantes do rock a força e a beleza deste álbum. E espero que todos que o escutem compartilhem comigo a certeza de que o bom e velho rock n' roll estará sempre se renovando e gerando novos artistas e bandas, garantindo assim o nosso prazer e nossa satisfação de escutar boa música.

Grande abraço a todos e até a próxima.

Betão.



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Gentle Giant - Free Hand


Bem vindos, amantes da música!

Mais, mais e mais Progressivo. Falo novamente dos ditos “vovôs” da música. A banda fruto dos estudos de hoje, foi-me apresentada enquanto descobria o gênio musical Frank Zappa, tendo uma sonoridade muito próxima a dele. É uma das bandas mais subestimadas da história, contando com um número seleto de fãs, porém, possui uma das maiores inteligências musicais que já vi, além de muita versatilidade. Procurem os shows deles na internet e verão os músicos constantemente trocando de postos, tocando vários instrumentos.



Originária do Reino Unido, (sempre ele, poço da maioria dos roqueiros da época) foi criada pelos irmãos Phil, Derek e Ray Shulman, que já possuíam ascendência musical, não é à toa os três terem seguido este caminho. A este molho familiar, foram acrescentados mais três músicos de ilibada reputação artística, Gary Green, John Weathers e o meu preferido, Kerry Minnear, o dono dos teclados, xilofone, violoncelo etc. Phil, um dos principais, abandona o barco após a gravação de “Octopus”, mas não compromete em nada os arranjos e sonoridade da banda. Tanto que, o disco que comento não tem sua presença.

Comentários sobre o som vêm em seguida junto com as músicas. Há muita coisa a ser dita. Sigamos!

Você quer ser o mesmo? Eles não! Just The Same começa provando que eles nunca são os mesmos. Cada instrumento toca uma nota, em um tempo distinto, causando um efeito extremamente diferenciado e anárquico, porém com ordem. Após o refrão, o clima floydiano viajado entra em cena, mas os pés ainda estão no chão, principalmente quando o ritmo fica blues na guitarra, teclado e naipe de metais. Gary Green aproveita a pausa de todos e fica em evidência ao som de palmas. Esta canção não possui o trovadorismo peculiar da banda, mas tenha calma!



Você acha que Queen tem o melhor coral de vozes que já ouviu? Você está redondamente enganado, escute a introdução de On Reflection! E o melhor, é executado por todos os membros da banda, não como Bohemian Raphsody, no qual só Freedie canta (entendam, não é uma crítica ao Queen, só uma constatação). E vai ficando mais difícil ainda, pois além de cantarem em coro, ainda conseguem tocar. Para os descrentes, é só procurar o vídeo da apresentação para a BBC de 1978, a prova está lá. Novamente não temos um destaque individual, pois o conjunto funciona como uma pessoa só. Kerry Minnear canta solo em alguns momentos e só. É perceptível a influência clássica, barroca e trovadora nesta faixa. Ao final o momento mais magnânimo, as notas feitas pelas vozes no começo, são feitas pelos instrumentos. Outra vez é de impressionar a habilidade em encaixar notas em tempos diferentes de cada instrumento. Para mim a melhor do álbum e talvez da banda.

Free Hand começa diferente do que se tinha de progressivo na época, estando novamente mais perto da sonoridade Zappaniana. Baixo, piano e guitarra confraternizam-se, livres de efeitos e vícios, remetem-nos ao jazz e ao clássico. Kerry Minnear é o grande nome, seus teclados atingem efetivamente alguma glândula cerebral da fantasia. Notas em desacordo, melodias consoantes e agudas, tudo em perfeita harmonia, parecendo haver diversos estados físicos da água, em uma música só. O refrão sobrepuja tudo e fala outra língua, destoando. Pura viagem.

Mais um grande pedaço musical. Time To Kill e His Last Voyage. A primeira muito rítmica, mais violenta, (ao estilo Gentle Giant de violência) e com momentos de pura diversão. O baixo de Ray é espaçado, tem muita força e técnica, acompanhando alguns instrumentos da música e principalmente os versos entoados por Derek e Kerry. A guitarra de Gary Green não complementa como estamos acostumados no Rock ‘n Roll tradicional, com peso, e sim, com fraseados em sua maioria limpos e sem efeitos. É importante salientar como a banda age democraticamente, você consegue ouvir praticamente todos os instrumentos e não nota nenhum se sobressaindo a outro. A segunda música é mais tranqüila e conta com Kerry Minnear nos vocais, que substituiu Phil Shulman perfeitamente nesta tarefa. Há muito de jazz nesta faixa, principalmente em sua metade, quando o clima fica esfumaçado, possibilitando um belo solo de guitarra. As duas faixas acabam complementando entre si.

Talybont expõem o lado trovador barroco da banda para fora. Abusam da flauta doce, do cravo e dos bumbos. A guitarra entra em alguns momentos, junto com o teclado, para lembrarmos que os tempos de conto de amor e de amigo já acabaram, colocando um pouco de ácido na coisa toda. É a ótima ponte para o que vem a seguir.

Mobile lembra em vários momentos determinadas músicas do Kansas, talvez pelo violino irritadiço e country ao fundo, lembro-me também da ótima Mahavishnu Orchestra. Aliás, o violino do multi-instrumentista Ray Shulman é o grande destaque, lembrando o estilo de grandes violinistas do Rock, como Jean Luc-Ponty. É country e rock and roll ao mesmo tempo, só que foge do padrão blues bastardo dos sulistas americanos. Ao meio da faixa tudo fica obscuro, Derek aparece cantando versos zunidos, fazendo-nos crer que tudo mudará, então o country blues do Salvador Dali volta e nos dá paz de novo, apesar de tudo continuar não fazendo sentido. Não é para fazer mesmo!

Aqui termino o Post sobre o gigante gentil que é orquestrado, virtuoso e muito poderoso musicalmente. Para quem curte os sons estranhos do rock alternativo da atualidade, para os amantes de jazz e música instrumental é necessário se embebedar da música deles por um dia pelo menos, aposto que encontrará diversas referências. E um grande detalhe, não há nenhuma música de vinte e cinco minutos como no usual rock progressivo. São musicas curtas para o padrão, mas com tantos elementos, que parecem músicas eternas. Ouçam!

Grande abraço e até a próxima.